(Arquivo Pessoal) Se estivesse estampada em um jornal do Rio de Janeiro, a reportagem também causaria impacto, mas seria mais uma entre as outras dez feitas só este ano para noticiar a morte de crianças em troca de tiros nas periferias daquela cidade. Ocorre que não foi no Rio, mas em Santos a morte de Ryan da Silva Andrade Santos, de apenas quatro anos, ocorrida na noite de terça-feira enquanto brincava com outras crianças na porta de casa, no Morro São Bento. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Ele foi atingido por uma bala durante tiroteio entre policiais militares e criminosos. Suspeitos de participar do confronto, um adolescente de 17 anos morreu e outro, de 15, foi ferido e internado sob escolta na Santa Casa de Misericórdia de Santos. Sete policiais envolvidos na ação foram afastados pela Secretaria de Segurança Público do Estado. Na família de Ryan, esse foi o segundo caso no mesmo ano: em fevereiro, o pai do menino, Leonel Andrade dos Santos, de 36 anos, foi baleado durante ação com policiais na Operação Verão e também morreu. A PM diz que estava armado e revidou. Não é preciso uma análise mais complexa para enxergar que, a despeito da maior oferta de policiais, armamentos e veículos por parte do Estado, o tráfico de drogas está ganhando mais amplitude e musculatura na região, inclusive com suspeitas recorrentes de financiamento de candidatos a cargos públicos nos pleitos municipais e gerais. A ponta final desse movimento é a morte de inocentes como o garoto Ryan, mas é também o aliciamento de jovens para as funções dentro da hierarquia presente nas facções criminosas, que têm a região como rota obrigatória de passagem para o tráfico local e internacional. Basta dizer que, na troca de tiros ocorrida terça-feira, outros dois jovens foram atingidos, de 15 e 17 anos. Provavelmente, estavam a serviço de um sistema que alicia jovens cada vez mais jovens, privando-os da educação e da profissionalização e, muitas vezes, também abreviando suas vidas. Nesse sentido, é elementar unir dois fatos ocorridos na mesma semana: além das mortes no São Bento, as polícias Federal e Militar desencadearam operação na Baixada Santista com mandados de prisão, busca e apreensão de pessoas envolvidas com o tráfico transnacional de drogas pelo Porto de Santos. Cinco pessoas foram presas. Como qualquer outra atividade econômica, o tráfico de drogas tem organograma de trabalho, com funções de alto, médio e baixo escalões, e se há autoridades e pessoas de expressão envolvidas nas camadas de cima, há, também, operários atuando na base dessa pirâmide, especialmente nas cidades litorâneas providas de portos, como Santos e Rio de Janeiro. O caso do menino Ryan não será fato isolado se medidas efetivas e acompanhamento diário não forem adotados. Apurar de onde partiu o tiro que matou a criança e punir quem o fez é tão importante quanto adotar ações urgentes e coletivas que tirem da região a imagem ruim que começa a ser construída de insegura e com áreas tomadas pelo tráfico. Essa é uma fotografia que, definitivamente, não interessa a ninguém.