Durante muito tempo, o enfrentamento das chuvas de verão foi tratado como um exercício de rotina das administrações públicas. Bastava reforçar equipes, limpar canais e aguardar a temporada passar. As águas de março fechavam o verão. Esse tempo ficou para trás. As medidas anunciadas pelas prefeituras da Baixada Santista diante da possibilidade de um Super El Niño demonstram que a região começa a compreender uma nova realidade: a de que eventos climáticos extremos deixaram de ser exceção para se tornar parte do planejamento permanente das cidades. A antecipação do plano de contingência em Santos, a atualização de protocolos em Guarujá, os investimentos em drenagem em São Vicente, os sistemas de monitoramento em Peruíbe, as ações estruturadas em Itanhaém, os programas preventivos de Cubatão, Bertioga e Mongaguá apontam para uma mudança importante de mentalidade. Ainda que em estágios diferentes, os municípios caminham na direção do que hoje se convencionou chamar de planos de resiliência climática: um conjunto de ações voltadas não apenas para responder a desastres, mas para reduzir riscos, preparar a população e adaptar a infraestrutura urbana às novas condições impostas pelo clima. Não se trata de alarmismo. A ciência já oferece evidências consistentes de que o planeta se aproxima dos pontos de não retorno em determinados sistemas climáticos. A elevação da temperatura média, a intensificação das chuvas extremas, das ondas de calor, das ressacas e dos períodos de estiagem são manifestações de um processo que dificilmente será revertido no curto prazo. A discussão deixou de ser apenas sobre como evitar as mudanças climáticas e passou a ser sobre como conviver com elas. Nesse contexto, obras de macrodrenagem, desassoreamento de rios, monitoramento meteorológico, sistemas de alerta, capacitação das Defesas Civis e treinamento das comunidades deixam de ser investimentos extras para se tornar políticas públicas permanentes. Quanto mais cedo essa lógica for incorporada ao planejamento urbano, menores serão os prejuízos humanos, sociais e econômicos. Há um aspecto, porém, que depende menos dos governos e mais de cada cidadão. Não existe plano de resiliência capaz de compensar o descarte irresponsável de lixo em ruas, encostas, canais e rios. Também não há sistema de drenagem eficiente se entulho de obras continuar sendo despejado irregularmente, contribuindo para o assoreamento de córregos e canais. Grande parte dos alagamentos urbanos decorre justamente da obstrução de galerias por resíduos que jamais deveriam estar ali. A adaptação às mudanças climáticas exige uma nova cultura coletiva. Cabe ao poder público investir, planejar e agir preventivamente. Cabe à população compreender que pequenas atitudes individuais têm impacto direto sobre a segurança coletiva. Resiliência climática não é apenas um conceito técnico, é um compromisso compartilhado entre governos e sociedade.