(FreePik) Em cantos opostos em muitos momentos da história, religião e ciência travam mais um duelo. Na última quarta-feira, o Vaticano trouxe a público documento no qual considera que o avanço de cirurgias estéticas pode estimular um ‘culto ao corpo’ e uma busca ilusória por juventude e perfeição física. Com aprovação do Papa Leão 14, o documento foi produzido pela Comissão Teológica Internacional do Vaticano, especializada em questões doutrinárias. De acordo com o texto, os avanços tecnológicos na cirurgia estética “alteram significativamente a relação das pessoas com o próprio corpo” e podem “incentivar uma obsessão por aparência”. Pelo que se depreende, a Igreja não tem a intenção de proibir cirurgias cujo objetivo principal é mudar o visual dos seres humanos. No entanto, o documento frisa que procedimentos dessa natureza não devem ser realizados exclusivamente por vaidade ou para atender padrões efêmeros de beleza. A realidade dos fatos, contudo, vai na direção contrária. Procedimentos estéticos se transformaram em uma indústria das mais lucrativas. Não por acaso, cresce a quantidade de cirurgias e tratamentos oferecidos, assim como o número de interessados em se submeter a eles. Se em um passado recente as transformações no corpo eram realizadas por pessoas com mais idade, dispostas a restaurar a aparência que tinham na juventude, de uns tempos para cá homens e mulheres de meia idade e até jovens entraram com tudo nesse universo. Contribuiu para esse estado de coisas o acesso facilitado e a diminuição de custos. As redes sociais, nas quais a exaltação à beleza e dos dotes físicos é intrínseca, também induzem os usuários a estarem sempre em dia com o visual para ter maior repercussão. Em uma análise mais profunda, o conceito de ‘culto ao corpo’ engloba muito mais do que as cirurgias estéticas. Nos dias de hoje, jovens, adultos e idosos se habituaram a praticar exercícios ao ar livre e em academias a qualquer hora do dia. O limite entre a busca por saúde e o culto ao corpo, assim, passa a ser subjetivo. Fica difícil saber onde começa um e onde termina o outro. A análise feita pela Comissão Teológica Internacional do Vaticano entrou em outro tema que suscita debates. No texto, a comissão também alerta para riscos ligados ao avanço da inteligência artificial (IA) e a possíveis intervenções tecnológicas no corpo humano. Entre as preocupações externadas está um cenário em que a inteligência artificial poderia escapar ao controle humano e pessoas passariam a usar implantes mecânicos para ampliar capacidades físicas. O Vaticano conclui a reflexão reconhecendo que avanços tecnológicos podem trazer benefícios a milhares de cidadãos, mas salienta que eles devem ser avaliados sob orientação de princípios éticos e da dignidade humana. Nada mais elementar. O debate, porém, está posto com bons argumentos de ambos os lados.