(Reprodução X) Pelas declarações do vice-presidente Geraldo Alckmin, o Governo Lula desistiu da ideia de dar uma resposta mais dura ao protecionismo agressivo e arrogante do americano Donald Trump. Trata-se de um alívio, pois se temia uma tentação populista eleitoreira de chamar a Casa Branca para uma queda de braço. Os riscos de uma reação brasileira extremada não estão totalmente descartados porque Trump pode ampliar ainda hoje seu arsenal de tarifas, em substituição às sobretaxas que a Suprema Corte derrubou em fevereiro. Além dos 25% confirmados contra o Brasil por supostas práticas comerciais desleais, os EUA devem impor mais 12,5% sob alegação de comprar produtos de mercados com trabalho forçado. Há ainda a promessa de aumentar a punição contra a China por excesso de capacidade produtiva e de cobrar 100% sobre medicamentos genéricos sem fabricação nos EUA, o que atingiria a Índia. Dessa forma, se o Brasil aplicar contra os EUA a Lei de Reciprocidade, uma versão brasileira da legislação comercial dos americanos, Trump acionará outros dispositivos, ocorrendo de fato uma guerra comercial. Pouco importa se haverá efeito interno indesejado para os EUA, de inflação. Para o Brasil, o que interessa é continuar exportando com um mínimo de paz. Se não retaliar é um alívio para os exportadores brasileiros, defender e até cobrar negociação por parte do Governo Lula se mostram inócuos neste momento. Os americanos se queixaram do Pix, de pirataria, desmatamento ilegal, da taxação das redes sociais e aplicativos e das barreiras ao etanol de milho. Para fazer um acordo com os EUA, o Brasil teria que fazer concessões relacionadas a essas acusações, e parte das indústrias e dos agricultores nacionais sairia sacrificada nas conversas. Em troca, o que o Brasil poderia faturar? Provavelmente uma redução de sobretaxas altíssimas antes criadas especificamente para forçar concessões. Portanto, Washington não tem ofertas a fazer ao Brasil, a não ser uma capitulação mais suave do País para interromper essa espécie de bullying. O grande erro da política tarifária dos americanos em relação ao Brasil é que o País tem uma economia complementar à dos Estados Unidos. Máquinas, peças, aços e insumos são usados nos EUA para produzir manufaturas, assim como carnes, café e suco de laranja deixaram de ser taxados para evitar inflação por lá. Por isso, o Brasil sofrerá impacto muito menor do que Canadá, México, China e União Europeia. Mas isso não é motivo para ignorar que esse cerco comercial é totalmente injusto. Além disso, há regiões do País que vivem exclusivamente de algumas dessas mercadorias taxadas, o que poderá causar uma ruína econômica no âmbito local. A solução é ganhar tempo e tentar impor uma negociação em que ambos os lados cedam, sem blefes. Até porque, após as reuniões já feitas, a Casa Branca agora conhece os pontos fortes e fracos do País, inclusive nas questões político-eleitorais.