A inauguração da nova estação de triagem Recicla Santos representa um avanço que merece ser reconhecido. Em um País que ainda engatinha quando o assunto é reaproveitamento de resíduos, ampliar a capacidade de separação, investir em tecnologia e, principalmente, oferecer coleta seletiva duas vezes por semana em todos os bairros coloca Santos em posição diferenciada. Trata-se de um serviço que ainda é privilégio de poucos municípios brasileiros. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Os números mostram o tamanho do desafio. O Brasil gerou 81,6 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos em 2024, o equivalente a 384 quilos por habitante no ano. Embora 93,7% desse volume tenha sido coletado, ainda há dificuldades na destinação e no reaproveitamento desses materiais. Dados oficiais mostram também que, quando contabilizada a atuação dos catadores informais, a reciclagem brasileira chegou a pouco mais de 8% dos resíduos. É um índice baixo, mas que revela algo fundamental: boa parte da reciclagem brasileira depende justamente de pessoas que trabalham à margem dos sistemas formais de coleta. Santos está avançando. Em 2025, a coleta seletiva recolhia, em média, 367 toneladas por mês. Neste ano, a média chegou a 450 toneladas mensais, crescimento de 23%. A nova central possui capacidade para separar até cinco toneladas por hora e perspectiva de chegar a 120 postos de trabalho. Mas infraestrutura, sozinha, não fará a transformação necessária. Há pelas ruas de Santos trabalhadores que diariamente recolhem papelão, latas, plásticos, metais e outros materiais. São homens e mulheres que prestam, ainda que informalmente, um serviço ambiental à Cidade. Retiram resíduos das ruas, evitam que materiais recicláveis sejam encaminhados ao aterro e alimentam uma cadeia econômica importante. Muitos, entretanto, fazem isso em condições precárias, puxando carrinhos pesados, expostos ao trânsito. Santos tem condições de criar um grande programa de inclusão dos trabalhadores da reciclagem, começando por um cadastramento que permita saber quem são, onde atuam e em que condições trabalham. A partir daí, seria possível oferecer capacitação, equipamentos de proteção, carrinhos adequados, integração às cooperativas e aos ecopontos e, sobretudo, mecanismos de remuneração pelo serviço ambiental que prestam. Não se trata de retirar essas pessoas das ruas, mas de tirá-las da informalidade e da vulnerabilidade. Também caberá à população fazer sua parte. Não adianta oferecer coleta seletiva duas vezes por semana se materiais recicláveis continuarem misturados a restos de comida e rejeitos. Reciclagem pressupõe infraestrutura pública, participação empresarial e mudança de hábitos dentro de cada residência. A Recicla Santos é uma boa notícia e deve ser celebrada, e pode representar algo ainda maior, exemplo para outros municípios: o início de uma política capaz de unir limpeza urbana, economia circular, geração de renda e inclusão social.