[[legacy_image_323135]] Dos tradicionais balanços de começo de ano, os conflitos Ucrânia-Rússia e Israel-Hamas exigem discutir as guerras que, na verdade, são quase dez no mundo, mas que podem ser mais conforme os critérios de avaliação. Porém, as duas primeiras concentram as atenções pelo risco de envolvimento direto de potências globais e regionais, como o Irã, que podem gerar complicações imprevisíveis, inclusive o uso de armas nucleares. Porém, há uma série de guerras ignoradas que são chocantes pela tragédia humanitária que causam, piorando a miséria, pois se situam em regiões das mais pobres do planeta. Segundo a BBC, além dos dois conflitos mais visados, há outros seis, quase todos, assim como Israel, relacionados a embates com grupos terroristas, que estão pulverizados após os EUA e aliados terem desmantelado, mas não totalmente, a Al-Qaeda e o Estado Islâmico. São os casos de Burkina Fasso, Nigéria e Somália. Há ainda países cujos governos são desafiados por grupos que ambicionam o poder, como Sudão, Mianmar e Iêmen. Este último é o caso mais preocupante no momento, pois os rebeldes houthis são apoiados pelo Irã e, além de se envolverem na disputa com o regime oficial, que tem os sauditas como aliados, passaram a atacar navios que consideram associados a Israel. Por isso, nos últimos dias, EUA e Reino Unido têm feito operações contra os houthis para garantir a navegação na região do Mar Vermelho. Há ainda o caso da Etiópia, que teve um acordo de paz assinado no fim de 2022. Uma reportagem da BBC não a incluiu entre as oito guerras, mas há relatos de que a violência étnica migrou do Tigré (ou Tigray) para Amhara, segundo a Deutsche Welle (portal de notícias público alemão). Entretanto, a atenção central continua na Ucrânia, que virou uma disputa interminável de guerrilha e que trouxe de volta uma guerra fria da Rússia com o Ocidente, mas há em paralelo uma nova China, mais poderosa, que, na prática, está mais preocupada com sua disputa comercial com os EUA. Assim como no passado, as crises entre as potências pesam regionalmente. Na América do Sul, teme-se que a aventura da Venezuela por Essequibo oponha EUA e Rússia, algo que tira o sono do Brasil. Essa participação de potências, tanto militarmente como politicamente em confrontos regionais, também se dá no Iêmen, na Síria e no caso Israel-Hamas. E poderá escalar futuramente em Taiwan, com o apoio americano à ilha, se a China agir de fato pela reconquista do que considera província rebelde. Tais conflitos precisam ser acompanhados pelo Brasil, obviamente sem envolvimento militar, até porque surgirão pressões muito fortes de todos os lados, considerando que China e Rússia participam do Brics, com o agravante de que haverá o ingresso do Irã no grupo. A tradição do Itamaraty da neutralidade permanece como um grande desafio, observando que o mundo ficou mais perigoso.