Há fatores locais que pressionam essa cotação, que é a fala diária do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mostrando resistência ao corte de gastos (Marcelo Camargo/Agência Brasil) Aos poucos o dólar segue avançando – ele fechou ontem em R\$5,66 (um centavo a mais sobre o dia anterior), apesar de ter batido em R\$ 5,70 com o mercado ainda aberto. O fator principal para essa escalada é externa - os juros americanos estão elevados, sugando capitais do mundo todo para os Estados Unidos, que é a economia mais segura e, além disso, que está remunerando bem. Antes da volta da inflação por lá, o Banco Central dos EUA trabalhava com taxas de 0,5%. Hoje elas estão entre 5% e 5,5% ao ano, frente aos 10,5% da Selic. Dessa forma, há uma procura mundial pela divisa e ela tende a subir compulsoriamente. Mas há fatores locais que pressionam essa cotação, que é a fala diária do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mostrando resistência ao corte de gastos e alardeando reunião com o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, para discutir o câmbio. Isso funciona como um estímulo aos boatos, entre eles aumentar o IOF para restringir especulação com a moeda americana ou adotar alguma medida abrupta. Apesar das pressões altistas no m<CW-20>ercado inspirarem cuidados, a situação atual do câmbio é muito mais amena do que a registrada nos anos 1980 e 1990. Na época do presidente João Figueiredo (1979-85) o País corria o risco de não ter dólares suficientes no mês seguinte para importar petróleo. O retrato da economia brasileira de então era de saldo comercial (exportações menos importações) negativo ou ínfimo e o ingresso de capitais externos à míngua. O Brasil sofria para pagar juros da dívida externa, lembrando que a Bacia de Campos não supria as necessidades internas. Com a ascensão da China e a expansão das commodities agrícolas e minerais no Brasil nos anos 2000, durante os dois primeiros mandatos de Lula, o País aumentou as reservas internacionais do Banco Central, acabando com o problema da dívida externa e as crises cambiais. Esse quadro benigno permanece até hoje. No ano passado o Brasil teve um saldo comercial de quase US\$ 100 bilhões e as reservas do BC agora estão perto de US\$ 360 bilhões. Portanto não há condições para um estouro da manada, que é a disparada do dólar tal como nas décadas passadas, porque o BC tem muito dinheiro para acalmar os ânimos. Porém, o discurso do presidente contra a autonomia do BC e ao chefe da autoridade monetária, Roberto Campos Neto, além de defender teses econômicas superadas, ampliam internamente a pressão internacional que o câmbio já sofre. Os exportadores faturam na conversão ao real, mas o dólar mais caro sobe os custos das atividades que dependem de serviços, bens e insumos importados, como alimentos e combustíveis, este último com potencial para disseminar inflação em toda a economia. O discurso afável à esquerda, questionando o BC e o setor financeiro em período pré-eleitoral, pode ter um peso negativo muito acentuado para a economia do País.