[[legacy_image_335612]] A mais recente viagem internacional do presidente Luiz Inácio Lula, que está na África, não deve ser vista com má vontade, até porque não se deve menosprezar o continente. Seus países ainda pesam pouco na pauta de exportações do Brasil, mas com populações em expansão e economias em crescimento, tendem a gerar muitos negócios aos brasileiros. Se chineses rivalizam em investimentos com americanos por lá, é porque aquela parte do globo não pode ser ignorada. A viagem de Lula, contudo, é notadamente política. Na reunião desta quinta-feira (15), em Cairo, com o presidente egípcio Abdel Fattah Al-Sisi, as conversas devem ter sido centradas na guerra Israel-Hamas, que ocorre colada no Egito. Assim como a direita apoia Israel, a esquerda é pró-Palestina. Mas essa crise não deve ser uma questão ideológica, pois antes de haver um consenso, é primordial impedir as mortes de civis. As imagens das agências de notícias com corpos ensanguentados de crianças são chocantes. Depois do Egito, Lula segue para a Etiópia, onde participa como convidado da cúpula da União Africana. A Etiópia é famosa por suas dificuldades, como uma guerra civil encerrada no papel, mas assim como o Egito, entrou para o Brics (sigla dos emergentes Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), o que explica a viagem de Lula para os dois países. O Egito é hoje a maior economia da África e a Etiópia, apesar da fome, da pobreza e da seca, é um grande produtor de café e ponto de parada para quem voa para a Ásia. O país tem 120 milhões de habitantes, um mercado consumidor que cresceria rapidamente em caso de algum progresso econômico sustentável. Porém, Lula precisa ampliar o foco econômico em suas viagens. Mas seu governo não levou comitiva de empresários, um erro, mesmo que o tour seja político. O Brasil exporta US\$ 13,2 bilhões por ano à África - apenas 3,9% das vendas externas brasileiras. O inverso também é bem fraco, com o continente africano participando em 5,7% das importações feitas pelo Brasil O Governo Lula defende a parceria sul-sul, como forma de se conectar mais com países pobres ou em desenvolvimento, diversificando em relação ao trio riquíssimo EUA-Europa-Japão. Porém, não é admissível descuidar desses grandes parceiros comerciais em benefício de uma diplomacia esquerdista parada no tempo. No ano passado, o México exportou US\$ 475 bilhões aos EUA, que elegeu o vizinho como economia “confiável” em meio à guerra fria com Rússia e China. Já o Brasil vendeu US\$ 51 bilhões aos EUA e US\$ 104 bilhões à China. Nesse contexto, as potências econômicas buscam aliados cujos produtos não sejam bloqueados numa guerra - comercial ou militar - tal como sofrido pela Rússia. Nesses novos blocos, no caso do Ocidente, além do México, Coreia do Sul, Índia, Canadá, países mais baratos da Europa e até o Vietnã estão indo bem. O Brasil precisa aproveitar mais esses novos ventos.