(FreePik) O transporte marítimo movimenta mais de 95% do comércio exterior brasileiro e sustenta boa parte da economia global. Mas a engrenagem que impulsiona o desenvolvimento também carrega um enorme desafio ambiental. Hoje, o setor responde por cerca de 3% das emissões mundiais de gases de efeito estufa ligadas à energia e, se nada mudar, essas emissões poderão chegar, até 2030, a níveis entre 90% e 130% superiores aos registrados em 2008. Os sinais de transformação, porém, começam a surgir nos portos brasileiros. Santos implantou o sistema de fornecimento elétrico para rebocadores atracados utilizando energia limpa da Usina de Itatinga. Paranaguá avança com logística ferroviária e geração solar. Suape se prepara para operar o primeiro terminal de contêineres totalmente eletrificado da América Latina. Pecém e Açu apostam no hidrogênio verde, na amônia verde e em corredores de combustíveis de baixo carbono. As iniciativas mostram que a descarbonização portuária deixou de ser discurso e passou a integrar decisões estratégicas de infraestrutura e competitividade. Mas também revelam um ponto central: os projetos ainda avançam de forma fragmentada e em velocidades diferentes. Essa foi justamente um das conclusões do projeto COP Portos Sustentáveis, realizado pelo Grupo Tribuna em 2025, reunindo autoridades, operadores, especialistas e representantes do setor em Santos, Paranaguá e Suape. Ao final do ciclo de debates, ficou evidente que o Brasil já possui experiências concretas de transição energética nos portos, mas ainda carece de escala, integração e padronização. Entre os principais consensos construídos durante o projeto, esteve a necessidade de criar métricas nacionais confiáveis para monitoramento de emissões, condição essencial para acesso a financiamentos verdes e para a credibilidade internacional do setor. Também se destacou a urgência de modernizar marcos regulatórios, reduzir burocracias e ampliar a cooperação entre iniciativas privada e pública. Outro ponto enfatizado foi a compreensão de que sustentabilidade e eficiência logística caminham juntas. Em outras palavras: não haverá descarbonização consistente sem ferrovias eficientes, energia limpa disponível, digitalização operacional e infraestrutura preparada para novos combustíveis. O Brasil possui vantagens competitivas importantes. Tem matriz elétrica predominantemente renovável, potencial para produção de hidrogênio verde e uma posição estratégica nas rotas globais. No entanto, transformar potencial em liderança exige acelerar investimentos e, sobretudo, ampliar as soluções já existentes. A experiência de Santos com o OPS não pode permanecer isolada. O modelo de eletrificação de Suape precisa inspirar outros terminais. Os projetos de Pecém e Açu devem ser vistos como embriões de uma nova economia portuária de baixo carbono. Escalar medidas mitigadoras deixou de ser opção ambiental para se tornar requisito econômico e comercial. E, sobretudo, fator decisivo de competitividade.