Portabilidade do cartão de crédito, apontada como vantagem, na verdade é mais um remédio para a doença crônica da inadimplência no País ( Marcello Casal Jr/Agência Brasil ) Apesar de ser uma boa medida para os consumidores endividados, a portabilidade do cartão de crédito, apontada como vantagem, na verdade é mais um remédio para a doença crônica da inadimplência no País. A resolução do Conselho Monetário Nacional (CMN) permite transferir o saldo devedor para outra instituição financeira que oferecer taxas mais baixas. Porém, enfrentar problemas com essa modalidade de financiamento significa se envolver com uma linha das mais caras, ao mesmo tempo uma das mais acessíveis. O ideal seria o governo investir em um efetivo programa de educação financeira, lembrando que renegociar essa dívida vai exigir uma capacidade de pagamento das parcelas por um período muito extenso. Por desconhecimento ou abuso ao consumir, esse mesmo cidadão poderá manter uma rotina de gastos excessivos, sem devidamente apertar o cinto, e até tomar outros empréstimos simultaneamente. Daí a importância de educar nessa área, uma promessa que foi embutida na criação do Desenrola, e disso não se ouve mais falar. Essa linha de crédito é cheia de vantagens, desde que o consumidor não comece a pagar juros. Em um mercado tão disputado, as instituições financeiras, por meio de bancos, lojas e aplicativos de diversos segmentos, oferecem muitos cartões. Enquanto os mais comportados têm vários deles com diferentes datas de vencimento para organizar seus pagamentos, outros aproveitam para migrar saldos – quando chega a hora em que a dívida fica insustentável, os pagamentos começam a atrasar e o consumidor se torna inadimplente, perdendo o acesso a linhas baratas. Empréstimos, como cartões e o cheque especial, não devem ser vistos como vilões, pois muitos consumidores os usam com parcimônia, pagando custos financeiros por curtos períodos. Mas a origem do problema, além da falta de educação financeira, tem relação com o baixo crescimento da economia intercalado com recessão e muito desemprego, o que causa atrasos nos pagamentos, levando à explosão da inadimplência na década passada. Porém, o principal impacto vem dos juros básicos, que desde 2000 ficaram abaixo de dois dígitos apenas entre 2009 e 2010, de 2012 a 2013 e entre 2017 e 2021 – nove anos em um total de 24. Percentuais elevados fazem disparar os saldos devedores, tirando dinheiro da economia por meio da queda do consumo e do corte de investimentos. Isso comprime a renda média devido ao desemprego. Com esse retrato, percebe-se que o festejo com a portabilidade do cartão indica uma inadimplência no País longe de ser resolvida. O programa Desenrola beneficiou muitas pessoas físicas e agora atende as pequenas empresas, mas é uma medida insuficiente. Ainda há reflexos de longo prazo de uma economia instável por muitas décadas, e são necessárias contínuas reformas para resolvê-los – não apenas com renegociação e vantagens para parcelar saldo devedor.