[[legacy_image_324373]] A previsão da balança comercial do ano passado foi uma das que os economistas tiveram que alterar ao longo de 2023, subindo de US\$ 60 bilhões para US\$ 80 bilhões. De fato, fechou em US\$ 98,8 bilhões, conforme o governo divulgou na sexta-feira e A Tribuna publicou, com detalhes, ontem. O saldo, que cresceu 9,4%, em relação a 2022, é uma conquista inestimável do País, sendo resultado de avanço do Produto Interno Bruto (PIB) acima do esperado (de 3%, ao invés de 1%), da alta produtividade do agronegócio, e de outro fenômeno que deve deixar de queixo caído quem viveu no começo dos anos 1980. Na época, o País tinha uma produção de petróleo irrisória e contava mês a mês as reservas internacionais do Banco Central para saber se teria recursos para suas importações. Agora, com o pré-sal, o produto apenas perdeu para a soja, considerando a lista dos itens mais exportados, com US\$ 42 bilhões. Deve-se acrescentar ainda que a China se revelou a parceira comercial que provavelmente o País jamais imaginou ter – 60% do saldo positivo brasileiro foram obtidos com os chineses, enquanto houve déficit com os americanos e ganhos modestos com a Europa e Argentina. Houve ainda uma conjuntura internacional favorável ao Brasil. Os preços das commodities caíram, mas não a ponto de derrubarem o saldo brasileiro. A China pisou no freio, porém, a melhora da qualidade de vida dos chineses manteve uma demanda excelente por alimentos. Os Estados Unidos, apesar dos juros altos, mantiveram um impressionante crescimento, fundamental para garantir uma calmaria no mercado financeiro, com fluxos de capitais ao Brasil, que poderiam ter sido inferiores devido à aversão ao risco dos emergentes. Por fim, com o mundo crescendo menos, a cotação do petróleo perdeu força, o que ajudou a segurar a inflação global. Por outro lado, a balança recorde reflete algumas debilidades da economia brasileira. O País se tornou um gigante exportador de petróleo, mas importa muitos derivados porque não investiu no refino. Agora, a Petrobras volta a investir na área, mas há o efeito ruim de espantar o investimento privado nesse segmento, beneficiando uma cartilha ideológica que poderá imprimir baixo crescimento. A pujança do agronegócio é a grande vitória do País, mas persiste o altíssimo risco de uma seca frustrar as expectativas para este ano, lembrando que o El Niño poderá causar surpresas até maio ou junho. Por isso, é importante diversificar a pauta exportadora, que poderia se dar do lado da indústria. Entretanto, este segmento perdeu competitividade e até agora suas fraquezas não foram atacadas pelo governo, que aposta em uma revolução da economia verde. Há ainda uma preocupante constatação: a balança teve um salto tão acentuado também porque as importações caíram 11,7% sobre 2022, sinal de que o País cresce pouco e consome menos ainda.