Há dois dias, este jornal propôs que prefeituras e estados iniciassem programas próprios e independentes do Governo Federal para assegurar renda a trabalhadores e empresas, com prioridade a desempregados. Restaria mais dinheiro à União para, por exemplo, comprar vacinas contra a covid-19. Por coincidência, naquela sexta-feira, o presidente Jair Bolsonaro reagiu de modo impensável contra iniciativas do tipo, já adotadas em cidades de pelo menos 14 unidades da Federação. “Querem fazer o Bolsa Família próprio”, criticou. “Pessoal vai devagar, devagar, tirando seus meios, tirando sua esperança, tirando teu ganha-pão, você a passar a ser sustentado pelo Estado”. Clique e Assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe acesso completo ao Portal e dezenas de descontos em lojas, restaurantes e serviços! Tais declarações permitem deduzir que o presidente se aborrece com uma colaboração desejável por qualquer administrador que, todo dia, faça um novo furo em seu cinto para segurar contas. Denotam desinteresse pelas dificuldades alheias. Escapa, sim, dos lábios de Bolsonaro sua estranha obsessão de deter o monopólio do desespero, para, na hipótese remota de sua gestão achar saída para tantos problemas, despontar heroicamente na eleição do próximo ano. O novo auxílio emergencial, decorrente da PEC a ser promulgada amanhã pelo Congresso, será um respiro para as contas públicas, ainda que em intensidade muito mais fraca agora. Como A Tribuna noticiou ontem, prefeituras da Baixada Santista não veem a hora do pagamento desse auxílio, que no ano passado foi pago para três em dez moradores locais. Em tese, representará curativo para um caixa ferido, mais gente em casa com comida e menos vírus em circulação. O isolamento social, por ora, é o que há para reduzir a crescente procura por serviços de saúde, à beira do esgotamento. O público vacinado ainda não baixou nem sequer da casa dos 70 anos. Falta imunizar 94% da população regional, conforme dados de sexta-feira. E é urgente conter a frequência a postos médicos, prontos-socorros, hospitais e a ocupação de leitos. Afinal, como se podia imaginar, o afrouxamento dos cuidados gerais na contenção de criadouros do mosquito Aedes aegypti está trazendo de volta doenças também letais, nos casos mais graves: dengue, que avançou 145% em duas semanas, e chikungunya, cujos registros quadruplicaram no mesmo período. Considerando que a postura de agentes públicos serve de base para o comportamento dos cidadãos, é um alento que, ao contrário do registrado nas festas de fim de ano, desta vez as prefeituras da região acatam as determinações sanitárias do Governo Estadual. Inclusive, com parte delas antecipando o fechamento das praias. Deve-se ter consciência de que a pandemia não estará eliminada no dia 30, quando, inicialmente, termina o prazo das restrições mais rígidas em São Paulo. Outras regiões brasileiras fazem o mesmo ou mais. Que não seja por votos. Mas, se para alguns governantes assim for, que o façam por inteligência, não pela extensão do sofrimento.