(Luiza Monteiro/Riotur) Que este será um ano eleitoral repleto de ações na Justiça, acusações de todos os lados, denuncismos e ataques nas redes sociais, ninguém tem dúvidas, até porque um dos oponentes ao atual governo, mesmo cumprindo pena em presídio de Brasília, segue articulando quem será o opositor escolhido para figurar nas urnas contra a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Esse enredo faz parte do jogo e é previsível que se intensifique com a aproximação da campanha eleitoral. Porém, algumas polêmicas antecipadas são totalmente desnecessárias, abusivas e não contribuem para o debate saudável. Mais que isso: acirram os ânimos e jogam setores da sociedade uns contra os outros de maneira ostensiva e agressiva. Um dos redutos mais comuns para críticas sociais sempre foi o Carnaval, especialmente das grandes escolas de samba de São Paulo e Rio de Janeiro. Em geral, são críticas inteligentes e bem construídas, que desencadeiam reflexões e jogam luz sobre temas nem sempre debatidos pela sociedade. Contudo, a Acadêmicos de Niterói, do Rio, exagerou, e aqui nem se discute se o tema escolhido e o homenageado principal da escola foram boas opções ou não, até porque a liberdade de escolha é um ponto que historicamente surpreende o público nessas ocasiões. Contar a trajetória do presidente Lula, desde sua origem pobre no interior de Pernambuco até a eleição para o Palácio do Planalto, foi opção da escola e é a Justiça Eleitoral que dirá se a escolha viola a lei eleitoral por supostamente fazer campanha pró-Lula de forma antecipada ou não. Há correntes jurídicas divergentes e esse é um debate plenamente saudável à democracia. A Acadêmicos de Niterói, porém, poderia ter se concentrado apenas nos detalhes da história do homenageado, no vaivém das campanhas das quais participou e em sua trajetória pessoal e política, já bem farta de enredos que facilmente sustentam as alas de uma escola de samba ao longo de um desfile na Marquês de Sapucaí. Desnecessário, porém, é intensificar caricaturas de forma agressiva, ridicularizando quem professa sua fé nesta ou naquela religião. A fé jamais poderia ser usada como ferramenta de provocação, tampouco estereotipar famílias de composição tradicional. Uma das alas colocou evangélicos lado a lado com caricaturas do agronegócio e do conservadorismo, reforçando estereótipos e apresentando valores bíblicos como algo ultrapassado ou digno de escárnio. A que se presta esse tipo de destaque? Nem mesmo ao petismo e a Lula, que certamente têm entre seus simpatizantes as tais famílias tradicionais e centenas de evangélicos. Divergências políticas fazem parte da democracia e o Carnaval sempre foi palco para escancará-las e promover o debate social e econômico que muitas vezes não ocorre em outros setores, mas o que se viu na noite de domingo foi uma estereotipagem rasa, que lamentavelmente só fez reduzir o brilho de uma das festas mais importantes da cultura brasileira.