(FreePik) A desidratação do pacote de corte de gastos indica que dentro de pouco tempo o governo terá de anunciar nova safra de redução de despesas – mas com o adicional de que necessitará de mais rigor, considerando as desconfianças dos agentes econômicos. Não se trata de agradar a Faria Lima. O fato é que as contas públicas estão se deteriorando e o déficit precisa ser financiado pela sociedade. Como há a expectativa de crise fiscal, os investidores cobram mais juros para sustentar a União devido ao risco. Além disso, há uma conexão importante com a inflação. Como o governo continua despejando recursos na economia, o consumo segue aquecido de forma anabolizada, pressionando a alta dos preços. Parte desse aquecimento tem relação com as exportações fortes e a expansão do mercado de trabalho, mas os gastos federais têm muita relação com a geração de emprego. Essa desconfiança também pressiona o câmbio, que já subiu 30% neste ano. Para se proteger contra a expectativa de inflação, o mercado se apoia na moeda americana. Portanto, não cola a ideia propagada para atenuar a imagem do governo de que houve um movimento coordenado da especulação do mercado com a moeda. O futuro presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, aliado do Palácio do Planalto, disse ontem que não tem sentido achar que a escalada do dólar se deve a um ataque especulativo planejado por uma espécie de “bloco monolítico”. Como há tendência de elevação do câmbio, quem é exportador adia a conversão de suas receitas para o real porque espera que a cotação subirá mais ainda, o que prejudica a oferta. Quem é importador ou tem compromissos internacionais amplia as compras cambiais quando a divisa americana tem desvalorização intermediária, reduzindo as quedas. Além disso, as multinacionais estão em época de enviar seus lucros para o exterior, adquirindo mais dólares. Dessa forma, as operações do BC equivalem a enxugar gelo – podem até derrubar a cotação, mas ela logo volta a subir. A normalização das expectativas do mercado agora depende totalmente do presidente Lula, que não confiou no ministro da Fazenda, Fernando Haddad, que alertou o Planalto sobre o risco do pacote passar a impressão de frouxidão nas contas públicas. Além do plano prever uma tesoura menor do que o necessário, embutiu-se a isenção do Imposto de Renda até R\$ 5 mil, carimbando uma falta de seriedade nas propostas, pois se opõe ao espírito delas – abrir mão de receitas em um pacote de corte de gastos. Na prática, a ala política derrotou Haddad, que também enfrentou a pressão dos colegas de ministérios, cada um com suas pretensões eleitorais em 2026, avessos a cortes. Porém, é certo que o dólar valorizado deve impactar nos preços e que os juros altos vão desacelerar a economia bruscamente. Quanto mais Lula relutar em fazer o dever de casa, mais ele prejudicará os resultados de seu governo e dificultará seus planos de reeleição ou da vitória de seu preferido, caso não se candidate.