A queda nos preços internacionais de petróleo, desencadeada nesta semana, traz uma série de consequências para a economia nacional. De um lado, ela tende a compensar a escalada do dólar ante o real, reforçando a redução da taxa de inflação no Brasil. Embora o ambiente de incertezas persista, agravado pela pandemia de coronavírus, a percepção do mercado é que o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) se aproxima cada vez mais de 3%, bem abaixo da meta do Banco Central, de 4% para 2020. Inflação baixa, de modo isolado, não é, porém, um indicador positivo para a economia. A queda do preço do barril de petróleo traz consequências graves para estados produtores, como é o caso do Rio de Janeiro, que terá redução da arrecadação de royalties e participações especiais, já sendo admitidas perdas de 10% a 20% na receita corrente líquida do estado, impossível de ser compensada. Essas estimativas já levam em conta a compensação originada do aumento do dólar frente ao real, e o quadro é considerado muito grave, podendo afetar as finanças fluminenses e provocar nova crise no pagamento do funcionalismo. A Petrobras também será afetada. Especialistas avaliam que a exploração e produção de petróleo e gás no pré-sal só é viável com o preço do barril entre US\$ 35 e US\$ 45, e os leilões de novos campos previstos podem ser inviabilizados. Outro ponto grave provocado pela guerra de preços entre Rússia e Arábia Saudita é o comprometimento do plano de desinvestimento da estatal. Especialistas avaliam que o cenário de baixa do preço do petróleo não é favorável à venda de refinarias, que estava em curso. Ao todo, a Petrobras está vendendo atualmente oito de suas 13 refinarias, que correspondem à metade de sua capacidade instalada, como parte de um compromisso firmado junto ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). Destaque-se que o setor de refino é o carro chefe do programa de desinvestimento da empresa, e é exatamente com o dinheiro arrecadado com a venda desses ativos que ela espera reduzir a dívida bruta de US\$ 87 bilhões para menos de US\$ 60 bilhões e intensificar o pagamento de dividendos em 2021. O cenário ainda é muito incerto. A crise dos últimos dias, em todo o mundo, tem provocado reações de governos, com várias medidas sendo anunciadas para ajudar a economia e superar os estragos causados. É possível que haja acordo entre países produtores e o mercado de petróleo possa voltar gradualmente ao normal, embora isso não deva acontecer rapidamente. A epidemia de coronavírus é, porém, um fator decisivo de complicações, com redução das atividades em todo o mundo, e efeitos no consumo de combustíveis. O mundo vive grandes turbulências e o petróleo é ingrediente grave da crise, exigindo atenção máxima nos próximos dias e semanas.