A descoberta de petróleo na costa ao norte do Amapá, anunciada ontem, sinaliza que o Brasil poderá manter sua autossuficiência do produto a partir de meados da próxima década, quando o pré-sal da Bacia de Santos entrará em decadência. Segundo a estatal, falta descobrir a quantidade de barris dessa reserva para saber se ela é realmente comercial. Por outro lado, há implicações ambientais devido à fragilidade e importância ecológica da região, situada na Bacia da Foz do Amazonas. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! A região é contígua à faixa litorânea da Guiana e Suriname, que já anunciaram descobertas volumosas de petróleo, fazendo com que a Petrobras aposte no potencial do norte do Amapá. Trata-se de um projeto fundamental para o desenvolvimento do País. Contudo, sua execução deve ter o aval técnico das autoridades ambientais, não somente o político. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva já decidiu pelo investimento, prioridade da estatal para a expansão da empresa. Porém, o tema ganhou dimensão eleitoral, com o petista aproveitando o anúncio para selar sua reaproximação com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, com quem esteve rompido desde o fim do ano passado. Ontem, ambos se encontraram na sonda da Petrobras, que perfurou o poço da descoberta. Alcolumbre, maior cacique político do estado, destravou pautas importantes para a campanha de Lula, como o fim da jornada 6x1 e o projeto da área de segurança pública. O lado eleitoreiro do projeto no Amapá preocupa devido à continuidade das análises técnicas, principalmente ambientais, que ainda serão realizadas em relação a essa busca de petróleo. Entretanto, não tem sentido a morosidade com que a área ambiental liberou a pesquisa da Petrobras no litoral do Amapá. A petrolífera francesa Total, devido a essa demora, deixou essa região e a Petrobras esperou dez anos para começar seus trabalhos. Na prática, quem fez o Ibama liberar a perfuração do poço foi Lula, que contrariou seu discurso ambientalista, lembrando que os ativistas são geralmente aliados da gestão petista e muito atuantes nas redes sociais. É inegável que o País deva manter sua autossuficiência em petróleo, mas a simples abertura de um poço já libera gás carbônico na atmosfera. Portanto, as decisões do Ibama continuam essenciais. Com sua presença no Amapá, a Petrobras consolidará sua operação nas duas pontas da Margem Equatorial, faixa litorânea entre o Amapá e Rio Grande do Norte, com vários projetos da Petrobras em maturação. Com certeza, a empresa sofrerá mais críticas por seus objetivos, pois é uma região de grande interesse para o turismo e com ecossistemas delicados, como o trecho amazônico entre o norte do Amapá e Belém (BA), Lençóis Maranhenses, Delta do Parnaíba (PI) e Fernando de Noronha (PE). Apesar do uso de novas fontes limpas de energia, os combustíveis fósseis ainda não devem ser ignorados, mas é preciso acelerar essa transição para combater o avanço das mudanças climáticas.