Imagem Ilustrativa (Marcello Casal Jr/Agência Brasil) Com a crise hídrica no Brasil e a preocupação crescente com a queda nos níveis dos reservatórios, a discussão sobre a volta do horário de verão ressurge como possível solução para amenizar os picos de consumo de energia. Entretanto, o debate não deve se limitar à simples adoção da medida. A seca que já castiga várias regiões e o aumento do consumo nos meses mais quentes apontam para a necessidade de um olhar mais amplo sobre a questão energética no Brasil. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! Historicamente, o horário de verão foi instituído com a intenção de aproveitar melhor a luz natural, postergando o uso de iluminação artificial. No entanto, com o passar dos anos, os hábitos de consumo se transformaram. Atualmente, o pico de demanda de energia não está mais concentrado no final do dia, mas durante o período mais quente, quando o uso de ar-condicionado e ventiladores se torna intenso. A proposta do horário de verão, portanto, embora ainda possa trazer pequenos benefícios em termos de redução da demanda ao final da tarde, não tem o impacto de antes. Para além de definir a adoção ou não do horário de verão a partir de outubro, é preciso pensar em como aproveitar ao máximo as fontes de energia renováveis, como solar e eólica, especialmente durante o dia, quando a demanda por eletricidade é mais alta. O Brasil, com sua vasta incidência de sol e ventos constantes, possui potencial significativo para investir nessas fontes, e tem uma matriz energética mais limpa que o resto do mundo, com 53% provenientes de hidrelétricas. Há espaço para fazer crescer a geração e o consumo de energia limpa. Outro ponto que carece de debate é a consciência sobre o uso racional da energia. O desperdício de energia não é apenas um problema econômico, mas também ambiental. Em um país onde as termelétricas — poluentes e caras — são frequentemente acionadas para cobrir picos de consumo, qualquer redução na necessidade de ativá-las já representa um ganho significativo. Nesse sentido, a adoção de práticas cotidianas mais conscientes, como uso eficiente dos eletrodomésticos e valorização da energia solar nas residências, pode aliviar a pressão sobre o sistema elétrico. Não há dúvida de que o horário de verão pode ter uma função simbólica, trazendo a reflexão sobre o consumo energético. Contudo, não é a solução definitiva aos desafios que vêm pela frente. É imperativo que o Brasil aposte em soluções estruturais, que envolvam o incentivo ao uso de energias limpas, investimentos em tecnologias de armazenamento de energia e uma campanha maciça de conscientização. A crise energética, em grande parte, é um reflexo de um sistema ainda muito dependente de fontes que, em tempos de estiagem, tornam-se insuficientes. Em vez de se limitar a discussões sobre adiantar ou não o relógio, governo e sociedade precisam se mobilizar para um debate mais profundo sobre sustentabilidade energética. O Brasil tem todas as condições de liderar uma transição energética mais verde.