(Ricardo Stuckert/PR) Criada há 80 anos, após a Segunda Guerra Mundial, com o objetivo de desenvolver ações contra a pobreza, proteger os direitos humanos e intervir em conflitos, a Organização das Nações Unidas (ONU) enfrenta um dos períodos mais críticos de sua existência, a ponto de autoridades historicamente antagônicas indiretamente se unirem e não economizarem palavras na abordagem negativa quanto à atuação da entidade. Em meio à intervenção militar promovida por Estados Unidos e Israel no Irã, a ONU recebeu críticas de todos os lados por não ser capaz de mediar o diálogo. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, por exemplo, declarou que a entidade tem perdido credibilidade por não cumprir os princípios estabelecidos em sua carta de fundação. Segundo ele, a ONU está “cedendo ao fatalismo” e dando mais espaço aos interesses ligados às guerras do que às iniciativas em defesa da paz e do combate à fome. Além disso, o brasileiro lamentou o fato de a organização não ter convocado os países para debater uma solução pacífica para o conflito no Oriente Médio. A reprovação à ONU também pode ser notada no discurso e nos gestos públicos de Donald Trump. Habituado a atacar a tudo e a todos com e sem razão – na maioria das vezes sem –, o presidente dos Estados Unidos chegou à conclusão de que a entidade não tem mais condições de levar partes conflitantes a um denominador comum. A insatisfação do dirigente norte-americano é tamanha que ele propôs a criação do Conselho da Paz, uma espécie de ONU paralela. Nele, Trump é presidente vitalício e tem poderes amplos, com permissão para convidar Estados membros, criar ou dissolver organismos subsidiários e indicar seu sucessor quando ele decidir deixar o cargo ou ficar incapacitado de prosseguir. O mais recente conflito no Irã, que ameaça se espalhar por toda a região e produzir consequências humanitárias e econômicas catastróficas, se soma à disputa entre Israel e Palestina pela Faixa de Gaza e à invasão da Ucrânia pela Rússia, que completou quatro anos sem que haja qualquer sinal de que vá terminar. A conjuntura internacional é delicada como poucas vezes, e nem as lembranças da Segunda Guerra e de todo o sofrimento que ela causou parecem servir de alerta. Entretanto, ainda que a ONU possa ter cometido equívocos e merecer repreensão, está claro que o entendimento entre as nações depende muito mais daqueles que as promovem do que de quem tenta, mesmo que em vão, sem uma estratégia eficiente, encerrá-las. A ONU, é sempre bom frisar, é um fórum de debates globais formado pelos países e seus principais dirigentes. Eles são, em última análise, os responsáveis pelo andamento dos trabalhos e também pelas divergências irreconciliáveis. Se não é possível chegar a um acordo que ponha fim a guerras e disputas que ceifam vidas e ameaçam a existência do planeta, é porque os governantes têm outras prioridades.