Uma pessoa é classificada como obesa quando apresenta Índice de Massa Corporal (IMC) igual ou superior a 30 kg/m² (Reprodução) A obesidade é um problema de saúde sério no Brasil. As estatísticas comprovam. De acordo com o Atlas Mundial da Obesidade, publicado no ano passado, aproximadamente 31% da população adulta vive com a doença, e mais de 60% sofre com o excesso de peso. Além disso, entre 2006 e 2024, a obesidade no País cresceu 118%, com aumentos importantes de males decorrentes como diabetes (135%) e hipertensão (31%). Graças a inegáveis avanços, muitos deles no campo da Medicina, campanhas que alertam para a relevância dos cuidados com a saúde se tornaram frequentes. Pelo que os números comprovam, porém, ainda há um longo caminho a ser percorrido. Por tudo isso, e pelo preconceito que muita gente que sofre com a doença enfrenta em uma era de exposição por vezes exacerbada, é inaceitável a frase do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de que, para emagrecer, as pessoas “têm que aprender a tirar a bunda da cadeira e andar um pouco”. Além de conter um termo inadequado para o mandatário da República, a declaração, dada durante evento no Rio de Janeiro na última sexta-feira, carrega doses de desinformação e insensibilidade. Na maioria dos casos, quem está acima do peso gostaria de viver outra realidade. Por inúmeros fatores, que vão desde a falta de tempo até questões físicas, emocionais e comportamentais, muitos não conseguem dar o primeiro passo rumo a um estilo de vida saudável, com direito a caminhadas e exercícios físicos, por exemplo. Também tem aqueles que deixam de movimentar o corpo e queimar calorias por falta de espaços públicos adequados ou porque parques e pistas Brasil afora não oferecem a segurança necessária. Se a intenção de Lula, alguém que nunca foi exemplo para falar de excesso de peso, era motivar os sedentários a entrarem em uma nova rotina, as palavras escolhidas não foram as melhores. Fora o fato de que elas partiram de alguém que vive uma realidade incomum, cercado de médicos e cuidados com a saúde e a alimentação, além de locais privilegiados para realizar atividades físicas com o devido acompanhamento. Não é a primeira vez – e nem será a última – que Lula apresenta soluções simples para problemas complexos. E em tempos nos quais canetas emagrecedoras falsificadas proliferam e a automedicação mantém níveis alarmantes, nada mais infeliz do que ignorar preceitos médicos para querer causar impacto. A intenção pode ter sido boa, mas a execução foi ruim. Um dirigente – ainda mais um presidente da República – precisa ter dimensão do reflexo e do peso de suas declarações. Durante a pandemia da covid-19, todos lembram, Jair Bolsonaro atrapalhou com vigor o combate à doença a partir de um repertório de comentários e atitudes impróprios que custaram milhares de vidas e contribuíram para acirrar a divisão do País. Por mais que a gravidade e a urgência do tema agora sejam diferentes, cabem o debate e a reflexão.