(Marcelo Camargo/Agência Brasil) O impasse no corte de gastos pelo governo se tornou um dos temas mais irritantes produzidos em Brasília, pois a cada semana são marcadas duas ou três reuniões e nada sai resolvido. A ansiedade gerada tem um custo, que é a subida dos juros futuros, que define as taxas do crédito, e o aumento da dívida pública, pois a desconfiança das contas federais faz o setor privado cobrar mais para emprestar ao governo. Além disso, o dólar, que já vem de tendência altista externa, sobe mais por aqui pela busca de proteção contra a incerteza. A promessa agora é de uma reunião amanhã e do anúncio, no dia seguinte, do pacote, que o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, disse que não gosta que chame suas medidas assim. Talvez ele tenha razão, pois “pacote” traz lembranças amargas dos anos 1980 e começo dos 1990, quando as contas públicas estavam colapsadas. Mas se deve fazer justiça – hoje o País tem muitas reservas internacionais e a inflação, apesar de preocupar, não está descontrolada. Há a taxa Selic elevadíssima, em 11,25% ao ano, mas ela é parte da solução, como forma de conter suspiros inflacionários. Mas até hoje o País não consegue crescer a juros baixos. A solução para isso já poderia ter ocorrido se desde o Plano Real os sucessivos governos tivessem cuidado melhor das contas públicas. A Lei de Responsabilidade Fiscal foi um avanço, mas o Estado manteve seu peso na economia, não mexeu nos privilégios e deu mais isenções fiscais. Tentou-se arrumar a Previdência, porém, mudanças sociais e geográficas aceleraram seu rombo. Mas esse problema ocorre nos outros países e não é um fracasso apenas do Brasil. Nesta terça, estima-se que o governo deva anunciar medidas com economia de R\$ 70 bilhões, um patamar que analistas dizem ser satisfatório e que levaria o dólar para R\$ 5,40. Também pode ser alterada a conta do reajuste do salário mínimo, para 2,5% acima da inflação, o que aliviaria os gastos obrigatórios, como aposentadorias e benefícios sociais. O lado positivo seria sobrar mais dinheiro para o custeio e investimentos. Porém, o presidente Lula estaria contrariando seu eleitorado fiel. Mas o impasse esteve na Previdência dos militares. Depois de muita conversa, se diz que haverá mudança na idade mínima da reserva, fim da pensão para os que foram expulsos das Forças Armadas e revisão na alíquota de contribuição da categoria para o Fundo de Saúde. Muitas dessas iniciativas sofrerão fogo amigo do PT ou das partes atingidas, como as Forças, o que pode gerar desidratação do valor a economizar. Isso seria péssimo para o governo perante o mercado, que dá sinais de descrença no pacote – caso contrário, os juros não estariam subindo. Mas pesa a favor do pacote o pragmatismo de Lula, que na verdade é o dono dos votos do partido para 2026. A equipe econômica parece estar se esforçando, mas tudo depende de Lula, se esse plano de corte de gastos será para valer.