As dúvidas sobre Galípolo foram plantadas pelo próprio Lula, que em suas críticas a Campos Neto foi além da política (Reprodução) O ex-presidente americano Donald Trump, quando ocupava a Casa Branca (2017 a 2021), costumava reclamar de Jerome Powell, que ele próprio tinha nomeado para o Federal Reserve (Fed), o Banco Central do país. Candidato de novo, Trump disse em fevereiro que, se eleito, poderia não reconduzir Powell, que foi mantido pelo democrata Joe Biden. A queixa de Trump é muito parecida com a de Luiz Inácio Lula da Silva em relação a Roberto Campos Neto, que comanda o Banco Central, de ser político e manter os juros altos desnecessariamente. Por isso, não será nada fácil a vida de Gabriel Galípolo, anunciado na quarta-feira para chefiar o BC a partir de janeiro. Tanto nos EUA como no Brasil (desde o Governo Bolsonaro), o presidente do Banco Central tem autonomia, com o cargo protegido até o próximo governo. Porém, como já afirmaram analistas, Galípolo, de 42 anos – que precisa passar por sabatina no Senado e deve ter sua nomeação aprovada – precisará provar que realmente será independente. Pesaram a seu favor ser próximo de Lula e do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, desde antes do início da campanha eleitoral de 2022. Galípolo fez carreira na Faria Lima, o centro financeiro de São Paulo, e presidiu o Banco Fator, experiências que pesam para ser respeitado pelo mercado. A sabatina deve ocorrer no próximo dia 9. O governo queria até antes – tudo indica para evitar a contaminação do Senado pela tensão dos dias 17 e 18, quando ocorrerão as reuniões do Comitê de Política Monetária (Copom) sobre possível alta da taxa Selic. A nomeação de Galípolo não faria diferença caso o Planalto quisesse mesmo interferir no placar agora – os diretores indicados por Jair Bolsonaro ainda estão em seus cargos. Mas recentemente o Copom tem buscado unanimidade para desfazer a sensação de desleixo com a inflação. Galípolo, antes de ser escolhido, defendeu o rigor e que a autoridade monetária subiria os juros se fosse necessário para cumprir a meta inflacionária, cujo teto é de 4,5%. Ele, entretanto, disse buscar o centro da meta, de 3%. É um patamar baixo para o Brasil e, para isso, será difícil reduzir os juros muito abaixo dos atuais 10,5%. As dúvidas sobre Galípolo foram plantadas pelo próprio Lula, que em suas críticas a Campos Neto foi além da política. O presidente do BC ainda é muito próximo de Bolsonaro e Lula disse estar incomodado com sua presença por essa ligação. Mas também se queixou dos juros altos, o que foi entendido pelo mercado, e também por quem acompanha a economia, de que deveria haver uma espécie de subordinação ao Planalto, um combustível para incendiar a desconfiança no setor financeiro. Agora Lula será questionado se o BC, chefiado por Galípolo, subir a Selic. Ou se o transformará em novo Alexandre Tombini, que perdeu credibilidade durante o governo de Dilma Rousseff. A torcida é que até dezembro o BC tenha sorte e consiga rapidamente estabilizar a inflação.