(Silvio Luiz/AT/Arquivo) A ressaca que atinge a orla de Santos pode ter sua origem muito longe daqui, no degelo que avança silenciosamente na Antártica. O que antes parecia distante hoje se manifesta de forma concreta na Baixada Santista: ondas de calor mais intensas, chuvas volumosas, alagamentos recorrentes, erosão costeira e o avanço do mar. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! Os dados científicos são consistentes. O planeta perdeu milhares de gigatoneladas de gelo nas últimas décadas, em ritmo acelerado, sobretudo a partir dos anos 1990. O aumento da temperatura do ar e dos oceanos, provocado principalmente pela emissão de gases de efeito estufa, pelo desmatamento e pela urbanização desordenada, desorganiza o equilíbrio climático. O oceano mais quente lança mais umidade na atmosfera; o encontro com frentes frias resulta em tempestades mais intensas. O nível do mar sobe. As correntes marítimas sofrem alterações. E os impactos deixam de ser previsão para se tornarem parte do cotidiano. Já não há dúvida de que toda ação desencadeada na natureza tem consequência. O que começa no degelo das calotas polares termina na maré que sobe, na areia que desaparece, na chuva que transborda canais e invade casas. Diante de um fenômeno global dessa magnitude, é compreensível que o cidadão comum se sinta pequeno. A sensação de impotência é alimentada pela ideia de que decisões climáticas dependem apenas de grandes potências ou de acordos internacionais. Mas essa conclusão é equivocada. O papel individual começa nas escolhas cotidianas, no consumo consciente, na redução de desperdícios, na cobrança por práticas mais sustentáveis de empresas e governos. Há, porém, uma dimensão ainda mais poderosa: o voto. Este é um ano eleitoral no Brasil. Serão escolhidos os chefes dos Executivos estaduais e federal, além dos representantes na Câmara dos Deputados, no Senado e nas Assembleias Legislativas. São essas instâncias que definem leis, políticas públicas, orçamento, fiscalização ambiental, investimentos em infraestrutura resiliente e planejamento urbano. O eleitor já se acostumou a observar propostas em áreas como segurança pública e geração de empregos, quando analisa planos, compara discursos, cobra resultados. O mesmo rigor precisa ser aplicado à agenda ambiental e climática. Não se trata de tema secundário ou ideológico, mas de qualidade de vida, desenvolvimento econômico e proteção das cidades. É evidente que não basta mencionar sustentabilidade no programa de governo ou repetir promessas na propaganda eleitoral. O compromisso real se mede por metas claras, estratégias definidas e coerência histórica. Ainda assim, a presença do tema nos planos é um primeiro filtro indispensável na hora de decidir o voto. Se as consequências das mudanças climáticas já são visíveis nas ruas, nas praias e nas casas, também precisa ser visível a responsabilidade de cada cidadão. O futuro do clima não é apenas uma questão científica. É, também, uma escolha política.