[[legacy_image_50496]] Por gerações, ecoou o mantra “Brasil, País do futuro”. A máxima vem do título de um livro cuja primeira edição se deu em 1941. Foi escrito pelo austríaco Stefan Zweig, um judeu que fugiu do nazismo na Segunda Guerra Mundial. Viveu seus últimos anos no Brasil e deixou registradas impressões altamente positivas da nação e de sua gente, a ponto de críticos apontarem tom ufanista em sua obra. Clique e Assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe acesso completo ao Portal e dezenas de descontos em lojas, restaurantes e serviços! Passados 80 anos, se houvesse um estrangeiro cujo olhar perpassasse os acontecimentos nacionais em um mundo sob pandemia — uma preocupação mundial, como fora o regime de Adolf Hitler —, talvez escrevesse que, hoje, o Brasil é o País da “boiada”. A expressão tornou-se célebre em abril do ano passado, quando, em reunião ministerial, o titular do Meio Ambiente, Ricardo Salles, sugeriu mudar “todo o regramento” de proteção ambiental enquanto a “imprensa só fala de covid”: portanto, era tempo de “ir passando a boiada” e “dar de baciada a simplificação” de regulamentos. Quase um ano e meio depois, com números e consequências que se conhecem à exaustão, o Governo Federal escancara um pouco mais a porteira e dá sinal verde para a realização, no Brasil, de um torneio futebolístico com a participação de dez países do continente. A Copa América, com início previsto para dia 13 e da qual o governo argentino declinou pelo avanço do coronavírus nesse país, foi recebida pelo Executivo brasileiro. A Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol), no Twitter, agradeceu ao presidente Jair Bolsonaro e à Confederação Brasileira de Futebol (CBF) pela garantia. Que pensar sobre a autorização para que se realize uma competição esportiva internacional, com delegações de dez países, em meio à profusão de cepas estrangeiras da covid-19? Houve repercussão negativa e, à noite, o ministro da Casa Civil, Luiz Eduardo Ramos, disse que só hoje estará confirmada ou não a Copa América no País. Se sim, não haveria público nos estádios. Também afirmou que, para haver torneio no Brasil, todas as delegações teriam de estar vacinadas. Para que se cumprisse esta condição, no entanto, todos já deveriam estar imunizados por completo, com duas doses recebidas e tendo se passado duas semanas da segunda. A conferir. Brasília não terá responsabilidade única pelo que vier a ocorrer. Governos estaduais que não negam veementemente a hipótese de receber partidas se omitem. Se é discutível que continue ocorrendo o Campeonato Brasileiro, ainda mais temerosa deveria ser a abertura das fronteiras a grupos da maior parte da América do Sul. A posição do Brasil e o estrago quase incorrigível a sua imagem no mundo exasperam quem vê evaporarem esperanças pessoais e coletivas. Chegou-se ao ponto de milhares terem preferido o perigo sanitário de se aglomerar em protestos contra o Governo a esperar, silenciosos e em casa, que ele restrinja o livre trânsito da boiada.