[[legacy_image_205651]] Em pleno século 21, quando domina a mídia e as atenções o discurso da tecnologia, do metaverso, das relações cada vez mais abertas e fluidas, das viagens ao espaço e conjecturas sobre como ocupar os demais planetas da galáxia, parece soar antigo imaginar um castelo com reis, rainhas, príncipes e súditos, onde a formalidade e o ritual são tão sagrados e litúrgicos que passam de geração a geração sem um ponto sequer de mudança. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Parece soar antigo, mas não tem nada de imaginário: é tão presente e real que, desde ontem, todas as atenções estão voltadas para o Reino Unido, onde a mais longeva das monarcas morreu, deixando um legado invejável de dedicação e respeito à vida pública, à diplomacia e manutenção dos valores familiares e de construção histórica de um povo. Rainha Elizabeth II morreu aos 96 anos, depois de 70 anos de coroação. Assume em seu lugar o filho primogênito, que agora passa a se chamar Rei Charles III. Em 96 anos, Elizabeth II vivenciou o período de maior tensão na Irlanda do Norte; a Guerra das Malvinas; as invasões do Iraque e do Afeganistão; e a pandemia da Covid-19. Ao longo dos anos, ela enfrentou diversas críticas à monarquia, mas sua popularidade conseguiu se manter em alta. E esse é ponto alto de uma líder que soube fazer de seus atributos um conjunto e valores mais expressivo e predominante do que todos os momentos difíceis pelos quais passou e viu seu reinado passar. Entre eles, a morte de Diana, de quem Príncipe Charles estava separado, e, mais recentemente, quando o neto Harry e a esposa, Meghan Markle, romperam com a família britânica, dizendo à rainha Elizabeth que não seriam mais membros ativos da realeza. Discreta e mesmo sem estar no comando das decisões políticas, a presença da Rainha Elizabeth em momentos históricos da humanidade serviu para nortear posicionamentos de outros líderes mundiais. Em 1965, por exemplo, ela se tornou a primeira monarca britânica a visitar a Alemanha em 52 anos, em uma visita histórica após as guerras mundiais. Em 1982, a rainha recebeu o papa João Paulo II em uma visita emblemática à Inglaterra, a primeira de um papa ao país em 450 anos. Em 2013, a monarca deu o seu consentimento real para um projeto de lei aprovado pelos legisladores abrindo caminho para os primeiros casamentos entre pessoas do mesmo sexo em 2014. Rainha Elizabeth deixa um legado de valores e respeito com a vida pública pouco vistos mundo afora. Em mais de 70 anos de reinado, jamais se soube ou se especulou sobre mau uso de recursos, desvio ético ou inidoneidades, e esse talvez seja o maior exemplo que o Reino Unido possa escrever sobre sua monarca nas bibliografias oficiais que surgirão a partir de agora. Feliz o povo que pode fazer constar em sua história personagens dessa envergadura. Que Rei Charles III mantenha em sua trajetória à frente do trono o mesmo DNA que sua mãe cunhou até aqui.