(Marcello Casal Jr. / Agência Brasil) Gabriel Galípolo, do Banco Central, conseguiu ontem a aprovação de sua indicação ao comando da instituição com uma impressionante tranquilidade no Senado. O atual presidente, Roberto Campos Neto, vai permanecer no cargo até o fim do ano, deixando o Governo Lula sem um alvo para apontar como responsável pelas dificuldades da economia. Antes de voltar a subir neste semestre, a taxa Selic, os juros básicos da economia, teve um modesto recuo de 3,25 pontos percentuais em um ano. Assim, o ambiente de crise mudou rapidamente para um crescimento robusto, com alta do Produto Interno Bruto (PIB) esperado de 3% neste ano, desemprego abaixo de 7% e uma balança comercial (exportações menos importações) acumulada em 2024 de US\$ 60 bilhões. Portanto, o discurso de Lula de atacar Campos Neto perdeu sentido, a não ser se for para antagonizar com a relação do chefe do BC com o bolsonarismo e o ex-ministro da Economia, Paulo Guedes. Agora, com Galípolo, por ser uma indicação de Lula, algo muito grave terá de acontecer para ser criticado pelo petista. A dúvida é se o futuro presidente da autoridade monetária terá liberdade para calibrar a inflação por meio da subida dos juros, um dos pilares da estabilidade. No Governo Bolsonaro, o BC passou a ter autonomia, e sua diretoria não pode ser exonerada pelo Poder Executivo durante o mandato de quatro anos. No caso do presidente do BC, ele fica na função até o segundo ano da gestão do próximo ocupante do Palácio do Planalto. Galípolo, por enquanto diretor do BC, tem atuado com liberdade, votando com Campos Neto, inclusive pelo retorno do atual ciclo de subida da Selic. Sua veemente afirmação semanas atrás, de que vai fazer o que for preciso para enfrentar a inflação, chegou até a assustar o mercado. Mas persiste na Faria Lima uma incerteza: ele resistirá a um telefonema de Lula em algum momento do expediente? O economista passou ontem por uma sabatina de quatro horas no Senado, teve todos os 26 votos na Comissão de Assuntos Econômicos e, no plenário, foi aprovado por 66 votos a cinco. Antes, fez o famoso ‘beija-mão’ na visita individual aos senadores, incluindo os da oposição. Galípolo está com Lula desde a campanha de 2022. Formado em Economia pela PUC-SP, tem 42 anos e experiência no setor público, no Governo do Estado entre 2007 e 2008 (assessoria em transportes e estruturação de parcerias público-privadas), e presidiu o Banco Fator, quando conduziu estudos de privatização, como o da Cedae (equivalente à Sabesp no RJ). Ele chegará ao comando do BC com um pouco de sorte, pois se espera que no começo do próximo ano a política de juros altos já tenha causado efeitos sobre a inflação, e a Selic poderá ficar congelada e depois cair. Mas sua tranquilidade vai depender da economia continuar com um crescimento pelo menos modesto, sem atrapalhar as ambições eleitorais do lulismo.