Os Correios voltam a recorrer ao Estado para enfrentar uma crise que já não pode ser tratada como pontual. A empresa pediu garantia soberana da União para contratar mais R\$ 7 bilhões em empréstimos, depois de já ter obtido R\$ 12 bilhões no fim de 2025. Somadas, as operações chegam a R\$ 19 bilhões, e o Orçamento de 2027 ainda prevê um aporte de R\$ 6 bilhões na estatal. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Empréstimo com garantia da União não significa, de imediato, retirar R\$ 7 bilhões dos cofres públicos, mas colocar o Tesouro como garantidor de uma companhia que acumula prejuízos bilionários. Se os Correios não tiverem capacidade para honrar seus compromissos, o risco privado transforma-se em obrigação pública, e essa é a questão central. Para além de solicitar recursos públicos para fechar as contas, é preciso saber quando, como e com que geração de caixa esse dinheiro será devolvido. Os números recomendam cautela: a estatal registrou prejuízo de R\$ 8,5 bilhões em 2025 e outros R\$ 5,5 bilhões apenas no primeiro semestre deste ano. Agora pretende assumir mais dívida, com prazo de 15 anos e três de carência. O Tribunal de Contas da União já manifestou preocupação com a garantia concedida ao financiamento anterior, questionando se houve avaliação rigorosa sobre a capacidade futura dos Correios de pagar a dívida. A nova operação, portanto, não pode ser autorizada como mera continuação da anterior, é preciso que esteja condicionada a metas objetivas, verificáveis e transparentes de recuperação. A crise também cobra uma reflexão sobre o que aconteceu com os Correios nas últimas décadas. Enquanto empresas privadas de logística, entregas e comércio eletrônico investiram em tecnologia, rastreamento, integração digital, centros de distribuição e novos modelos de negócio, a estatal perdeu competitividade e espaço. O mercado mudou rapidamente; os Correios, não na mesma velocidade. Isso não significa ignorar sua relevância estratégica e social. Com presença nacional e obrigação de atender localidades pouco atraentes comercialmente, os Correios cumprem função que não pode ser comparada integralmente à de uma transportadora privada. Justamente por isso, porém, sua sustentabilidade deveria ser tratada com ainda mais responsabilidade. Dinheiro público não pode funcionar como ponte para uma ponte seguinte. Se a União vai assumir riscos bilionários e ainda capitalizar a empresa, a sociedade tem direito de conhecer o destino dos recursos, as metas de redução de despesas, os ganhos de produtividade, as fontes futuras de receita e, sobretudo, o horizonte para que os Correios voltem a caminhar com as próprias pernas. Ou se estabelece um planejamento estratégico que responda a todas essas questões, ou não se deve descartar, em futuro próximo, que a empresa seja concedida à iniciativa privada, com contrapartidas que respondam às funções sociais que ainda hoje mantém.