Sede do Banco Central, em Brasília: País está sujeito a fatores externos sobre suas decisões no campo do custo do crédito (Marcello Casal JrAgência Brasil) Assunto árido para a maioria da população, o comportamento dos juros se tornou um transtorno para as empresas que mais dependem de financiamento, como as varejistas. Portanto, o recente recuo das taxas dos títulos públicos é um alívio, ressalvando que, de fato, essa queda, se consolidada, levará um tempo para chegar ao dia a dia das empresas. Portanto, é de extrema importância que o crédito se torne mais barato para estimular os investimentos e o consumo. Reportagens publicadas por A Tribuna nas últimas semanas mostram um quadro de vendas positivas de imóveis novos ou na planta. Porém, as empresas e compradores de classe média seguem cautelosos sobre, respectivamente, desenvolverem novos empreendimentos e contraírem empréstimos. Obviamente, porque juros elevados causam insegurança. Nos últimos dias, os papéis prefixados do Tesouro Nacional recuaram pelo menos dois pontos percentuais, sinal de que o mercado financeiro passou a apostar que os juros têm espaço para cair. A expectativa tem relação com a promessa do candidato Flávio Bolsonaro (PL) de reduzir gastos públicos, apesar dele ainda não ter detalhado as medidas que seriam aplicadas. Já o presidente Luiz Inácio Lula da Silva defende a continuidade dos investimentos nos programas sociais, mas economistas alertam que não há como o governo escapar de um ajuste fiscal rigoroso no próximo ano. Entretanto, o rumo dos juros depende da inflação, que acordou em setembro com a subida dos preços da energia e dos alimentos, com produção prejudicada pelas condições climáticas. Por outro lado, o petróleo voltou a ficar acima de US\$ 100, bem mais do que os US\$ 61 do começo do ano. Os combustíveis seguem subsidiados pelo governo com recursos das exportações da Petrobras, mas é possível que a guerra no Oriente Médio seja retomada após novembro, quando ocorrerão eleições nos EUA. Isso poderia forçar as cotações e dificultar a continuidade das subvenções que hoje impedem a alta da gasolina e do diesel. Dessa forma, o Banco Central não teria como manter a política de redução da taxa Selic no próximo ano. Há ainda um problema extra. O Banco Central dos Estados Unidos deve voltar a subir os juros, devido à persistência da inflação. Isso tira espaço para uma redução das taxas no Brasil devido à competição por capitais globais. Portanto, o Brasil está sujeito a fatores externos sobre suas decisões no campo do custo do crédito. Como não há como escapar de impactos da economia mundial, a melhor solução é agir internamente com austeridade nas contas públicas. Independentemente do vencedor das eleições, haverá pressões naturais por mais gastos, como os obrigatórios da Previdência, reflexo do envelhecimento da população, e das pressões políticas, como as emendas parlamentares. Por isso, o próximo governo terá que convencer o Congresso sobre a importância de reduzir as despesas públicas de qualquer instância.