O Ministério do Trabalho divulgou a geração de 240 mil empregos com carteira em abril (Reprodução/Pixabay) A tragédia climática do Rio Grande do Sul e a surra que o governo continua levando nas votações no Congresso ofuscaram o viés positivo de um dos componentes mais favoráveis à atual gestão, o mercado de trabalho. Os números superam as expectativas, mas também trazem a suspeita de que há um aquecimento acima do sustentável na economia, com ameaça inflacionária. Na última quarta-feira, o Ministério do Trabalho divulgou a geração de 240 mil empregos com carteira em abril (foram 181 mil em abril de 2023). Os analistas projetavam desempenho mensal de 210 mil postos. Já o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que faz uma pesquisa mais profunda, incluindo o mercado informal, apontou desemprego de 7,5% na estatística trimestral fechada em abril, abaixo dos 7,9% de março. Além de ser o menor nível para o mês em dez anos, a queda de 0,4 ponto percentual é um feito e tanto, pois aos poucos se aproxima do piso de dezembro de 2013, de 6,3%. Além disso, há outros dados consistentes, como expansão do salário médio e da massa salarial (soma do ganho de todos os trabalhadores). Se há alguns meses os economistas atribuíam a melhora à mão pesada do governo, que elevou o salário mínimo e esticou os benefícios sociais, com crescimento do emprego informal (sem carteira), agora é o trabalho formal que avança, o que significa salários melhores, estabilidade na vaga e mais receita para a Previdência. Há ainda uma retroalimentação – a alta da renda anima o consumo, que expande a economia, gerando mais vagas. O quadro é positivo, mas isso não significa que o problema da fraqueza da economia foi resolvido. Em novembro de 2015, dois anos após o piso em 2013, o desemprego já tinha subido para 9,1%, atingindo 13,9%em março de 2017. Com esse histórico, fica a dúvida se essa retomada de trabalho será consistente. A resposta está no tamanho do impacto do aumento da renda na inflação. Com baixa produtividade e cultura inflacionária, a atividade econômica tende a responder muito mal a qualquer pressão, obrigando o Banco Central a manter os juros altos por bom tempo. Com isso, o Produto Interno Bruto perde fôlego rapidamente, intercalando baixo crescimento com recessão–tem sido assim há quase 15 anos. . Perigosamente o presidente Lula faz ataques ao BC, que é o guardião da moeda contra a inflação. Não é uma instituição perfeita, lembrando que no auge da pandemia os juros ficaram em níveis muito baixos e demoraram a subir, o que refletiu nos preços. O mercado de trabalho pode agora ser o principal pilar do desenvolvimento, e não o gasto público, mas a sedução do populismo e do vale-tudo para ganhar eleição ameaçariam a recuperação do País. Ainda há produtos encarecendo nos supermercados, baixo poder de compra e setores patinando, como a indústria, além do elevado endividamento (mesmo com o Desenrola). Não se deve descuidar agora.