"Não é possível o povo não poder comprar remédio porque a Anvisa não libera”, disse Lula (Rafa Neddermeyer/Agência Brasil) Em seu discurso na Assembleia-Geral das Nações Unidas, nesta terça (24), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva alertou para o ritmo lento da descarbonização e que a economia mundial precisa ficar menos dependente de combustíveis fósseis. A afirmação está correta, pois se trata do tema mais urgente do planeta, considerando as últimas catástrofes climáticas no globo. Entretanto, a fala não está coerente com o que de fato se verifica no País. A transição para automóveis elétricos ou híbridos segue em ritmo lento e a infraestrutura necessária, como pontos de carregamento nas cidades e nas rodovias, é ínfima, além de não haver um programa de crédito eficiente para acelerar essa mudança do lado do consumidor. A incoerência também está na exploração do petróleo, que o Governo Lula se esforça por manter nas mãos do Estado. Ao mesmo tempo em que seus diplomatas e o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, negociam com fundos estrangeiros recursos para projetos verdes ou de preservação das florestas, as alas ambientalista e desenvolvimentista da aliança do petista divergem sobre exploração petrolífera e mineração, o que inclui áreas da Amazônia. O ponto central do conflito é a Margem Equatorial, faixa da costa entre o Amapá e o Rio Grande do Norte, cuja área principal da discórdia é a Foz do Amazonas. Por ser contíguo às Guianas, estima-se que esse trecho tenha reservas de elevado potencial comercial, atrativas para a Petrobras, que concluiu que o pré-sal da Bacia de Santos vai se exaurir antes do esperado, na próxima década. Porém, a cada poço novo aberto no planeta, há uma emissão de gases em consequência, contrariando qualquer discurso pela salvação do mundo. Mas o bom senso permite entender que a sociedade continua dependente até o pescoço do petróleo e que uma reversão total está desconectada da realidade consumista do mundo. O País, que recentemente ingressou no seleto grupo de grandes produtores de petróleo, precisa fazer um discurso mais maduro sobre sua preocupação ambiental. Criticar as economias ricas por terem poluído o mundo em proporções assustadoras desde a revolução industrial tem todo o sentido, afinal o reparo inclui financiar a transição energética dos países mais pobres. Porém, o Brasil é parte dessa devastação ambiental e precisa igualmente dar uma guinada à sustentabilidade. Apesar da conscientização ter avançado rapidamente na sociedade, o uso abusivo de plástico, a geração de lixo e a queima de combustível continuam ocorrendo em larga escala. Lula fez um discurso correto na ONU do lado ambiental, afirmando que seu governo não “não terceiriza responsabilidade”, considerando os recentes incêndios florestais. Mas muito precisa ser feito internamente, com investimento em infraestrutura sustentável e na atuação firme para combater os “ilícitos ambientais”, como garimpo e desmatamento. Contudo, é preciso agir mais rapidamente.