(Alex Brandon/Associated Press/Estadão Conteúdo) A três dias do começo da imposição da tarifa de 50% sobre os produtos brasileiros pelos Estados Unidos, o Governo Lula e os exportadores são confrontados com sinais de que há pouco a fazer em relação ao cerco do presidente Donald Trump. A ideia inicial de que o americano estaria disposto a negociar não se consumou e, caso ele aceite conversar, isso poderá se dar ao longo de demoradas semanas. A alternativa seria aplicar a Lei da Reciprocidade, que tem mais utilidade para uma mesa de conversas, como fator de pressão. O Brasil adotaria sobretaxa igual e medidas que prejudiquem os interesses dos EUA. Já se falou em quebrar patentes e romper direitos autorais e até, mais radicalmente, bloquear as remessas de lucros das multinacionais. Sobre as big techs, há chance de mais receita para o governo, que cobraria Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide) de 3% sobre a publicidade digital. Entretanto, retaliar significa sofrer mais ataques do lado oposto. Há boatos, que os analistas de tecnologia e de política internacional acham improvável, de que os EUA poderiam bloquear o GPS, que tem alternativas na China e Europa – mas com certeza seria um transtorno. Os EUA ainda têm outras armas, como controle do sistema financeiro e sancionar autoridades, a exemplo dos vistos suspensos de ministros do Supremo. Não é possível afirmar com certeza o que Trump pretende fazer, que citou em primeiro lugar em sua carta a exigência da suspensão do processo contra o ex-presidente Jair Bolsonaro. Analistas dizem que o discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na cúpula do Brics sobre moeda alternativa ao dólar teria sido o principal motivo para Trump pressionar o Brasil. Contudo, a motivação das tarifas do republicano é comercial, para reduzir o déficit dos EUA com o mundo, além de reindustrializar o país. Porém, o Brasil é um dos raros parceiros com saldo negativo com os americanos, o que poderia levar exportadores e importadores a questionarem a Casa Branca na Justiça. Por isso, o Representante Comercial dos EUA (USTR, em inglês) deve ter elencado alvos como o Pix e a Rua 25 de Março para uma investigação de desonestidade do Brasil. O nó que se tem contra deslanchar as negociações é que Trump desrespeita as instituições do País e Lula defende a soberania nacional. Mas do lado comercial, as conversas seriam totalmente viáveis. Há possíveis concessões para o País referentes a produtos cuja taxação terá impacto inflacionário nos EUA, como suco de laranja, café e carnes. Já a Embraer está otimista, pois a empresa compra muitos componentes americanos. Mas há indústrias, como a fabricante de armas Taurus, que sofrerão. Existem ainda cidades pequenas cuja economia depende de um negócio exportador, filiais abertas por grandes grupos com a finalidade de reduzir os custos. Portanto, a retaliação é o último dos recursos. Os dois lados perdem, mas o Brasil sofrerá mais.