[[legacy_image_323505]] Há um ano estourava a crise da Lojas Americanas, quando sua própria direção, recém-empossada, divulgou ter descoberto rombo bilionário. Na época, o que parecia ser um problema localizado de gestão, na verdade revelou que muitas empresas estavam bastante endividadas. Assustados, os bancos endureceram a concessão de crédito e os investidores passaram a ver com desconfiança o segmento de debêntures, que são papéis emitidos por companhias para levantar recursos para alguma finalidade, em troca de juros ao comprador do papel. A situação foi tão preocupante que os mais pessimistas anteviram uma crise de crédito, o que significa fechamento total das torneiras do financiamento e uma onda de calotes, a ponto de ameaçar a solvência do setor financeiro. Apesar das dificuldades de muitos varejistas, provavelmente de pequenas empresas e até do cidadão comum inadimplente, o caos não se deu. Vários fatores colaboraram para que o pior não se confirmasse, mas o mais objetivo foi a redução da taxa básica de juros, que teve um papel fundamental do sufocamento do setor privado. Por outro lado, mais uma vez foi confirmado que a política de elevar a Selic para conter a inflação dá resultados, ainda que se discuta a dosagem certa. A Selic, agora em 11,75% ao ano, continua em queda e o mercado prevê que ela chegará a 9% até o fim do ano, o que dá uma previsibilidade para quem vai fazer investimentos que exigem crédito. Para o consumidor, além da possibilidade de obter empréstimos mais em conta, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), o indicador oficial usado pelo setor público e o mercado, perdeu força no ano passado e poderá se manter dentro da meta do Banco Central daqui para frente. Apenas esses dois fatores, IPCA e Selic, em acomodação em níveis mais baixos, têm um efeito benéfico no custo do dinheiro, que por si só tende a fazer a economia andar com maior estabilidade. A parte ruim é que até agora não houve uma solução para o endividamento público, elevadíssimo, e sem uma política de contenção em qualquer poder, o Executivo, o Legislativo e o Judiciário. Há uma regra bem definida contra o aumento dos gastos estatais, um acerto do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, mas se sabe que não há como cumpri-la. O arcabouço fiscal apenas aponta limitações e o setor financeiro se satisfaz com ele. Se a receita melhorar, será por sorte. Amenizados os problemas por meio da política monetária, permanecem as fragilidades estruturais, que são várias, mas se pode destacar a do crédito. Se as grandes empresas pagam muitos juros, as pequenas não têm financiamento abundante e muito menos barato. Os bancos temem sofrer calote e a ideia de atender o menor porte por meio do BNDES continua uma promessa. Se isso não for resolvido, a cada disparada da inflação, seguida de seus remédios duros, as perdas voltarão, com muito desemprego e empobrecimento.