[[legacy_image_159107]] Há duas semanas, a derrota ucraniana era dada como certa e que a vitória russa seria consumada em poucos dias. Enquanto Vladimir Putin era inflado com ares de estrategista do século 21 e muitos achavam que os ucranianos cederiam aos tanques russos com consternação, os líderes das potências do Ocidente ofereciam mais discursos em solidariedade e pouca ajuda prática. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Mas, com o começo da invasão, o povo da Ucrânia mostrou a mesma força que derrubou o governo local pró-Moscou em 2014. Já o atual presidente Volodymyr Zelensky, que não era levado a sério fora do país e até internamente, revelou ter o dom da palavra e habilidade para conduzir a reação contra o arsenal de Putin. Zelensky soube usar as palavras certas para mostrar quem era o mocinho e o bandido dessa história e desafiou os regimes democráticos a não se acomodarem, pois os planos do Kremlin não se encerrariam na Ucrânia. Zelensky soube traduzir bem o sentimento dos ucranianos ao mundo – de não quererem ser sacrificados enquanto nação para manter uma nova ordem mundial. Devido ao seu poderio bélico, Putin ainda é favorito à vitória, mas trouxe para si algumas batalhas dentro de seu país, o que significa uma derrota. As sanções econômicas eram esperadas, mas não no porte anunciado e provavelmente ele não imaginava que a Rússia seria “cancelada” pelas empresas do Ocidente. O McDonald’s, que em 1990 fincou uma bandeira do capitalismo na União Soviética ao inaugurar por lá a primeira loja, é um dos ícones americanos que acabam de suspender suas atividades na Rússia. O “cancelamento” é tão forte que a expectativa é de recuo da economia de 15%. A tese de que o país se preparou economicamente contra sanções caiu por terra. A imagem russa foi alvejada e para o mundo globalizado se tornou imoral a uma grande companhia permanecer no país. Mas ainda não se sabe se esse cerco vai fazer o cidadão russo comum culpar seu governo ou se este saberá desabrochar um sentimento nacionalista em defesa da pátria. Entretanto, há o custo interno mais caro das guerras, que é receber de volta seus jovens mortos no campo de batalha, principalmente quando os corpos começam a ser enterrados por seus familiares. Por mais que a máquina da propaganda oficial atue para anular um sentimento pacifista, a conversa no pé de ouvido é da natureza humana e pode ser a semente para questionar líderes autoritários. Se Putin se sentir internamente pressionado, também poderá apelar por um controle mais forte do país ou tentar arrastar o mundo para um conflito global com a finalidade de obter concessões. Por isso, ainda que qualquer autoritarismo deva ser combatido veemente, a expectativa de uma saída negociada para a Ucrânia precisa ser a prioridade. Por enquanto, os sinais são de impasse, com forças russas cercando as cidades e a resistência ucraniana disposta a reagir mesmo se o governo local cair.