A guinada de grandes empresários, banqueiros e políticos para o que se convencionou chamar de “defesa da vida”, em meio à mais catastrófica pandemia a ter atingido o Brasil, rachou o casco do transatlântico da governabilidade em nível federal. Os que agora estendem mãos flácidas ao Executivo, quando não lhe dão as costas, parecem menos dispostos a soldar a embarcação. Deixar que a água entre poderá ser vantajoso ao grupo. Clique e Assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe acesso completo ao Portal e dezenas de descontos em lojas, restaurantes e serviços! Grandes negociadores observam oportunidades nas crises. Por vezes, o que falta é um novo elemento para dispor ou uma brecha para usar a criatividade. Deixando-se de lado preferências ou repulsas em termos políticos e partidários, deve-se reconhecer que o caminho solitário percorrido pelo presidente Jair Bolsonaro ganhou uma pedra a partir do dia 8 passado: a decisão pela qual o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva teve anuladas condenações na Operação Lava Jato. Dali por diante, com declarações públicas de Lula na condição de presidenciável e entrevistas a veículos de comunicação do exterior nas quais defendeu entendimento internacional por vacinas, Bolsonaro se viu obrigado a reagir. Trocou o ministro da Saúde por um médico e ensaiou mudanças de comportamento, nem todas convincentes — continua reticente a cuidados sanitários mais rígidos e moldando fatos às suas convicções. Para seus aliados, até então os presidentes das casas legislativas, parlamentares do centrão e investidores que em 2018 apostaram em seu nome, são mudanças insuficientes. Representam muito mais do que um mero desconforto pelo fato de não se ter nomeado para a Saúde a cardiologista Ludhmila Hajjar, apoiada por agentes como o presidente da Câmara Federal, Arthur Lira. Tal episódio serviu de pretexto para movimentos imediatamente posteriores: a carta de agentes econômicos aos líderes dos três poderes; o encontro que resultou no anúncio de um comitê para medidas contra a covid-19; o “sinal amarelo” aceso por Lira para o eventual uso de “remédios políticos” que são “todos amargos. Alguns, fatais”; a cobrança pública de deputados e senadores para que o chanceler Ernesto Araújo deixe o cargo, por seus desastres diplomáticos; a exigência do afastamento de um assesor do Planalto por gesto ofensivo. Nenhum dos problemas que levaram aos acontecimentos do parágrafo anterior tem menos de 20 dias. As atitudes ruinosas do Governo quanto à pandemia antecedem a classificação da doença nesse nível. E, conforme declarou à GloboNews a ex-presidente do BNDES Elena Landau, uma das signatárias da carta aos poderes, o texto era gestado há meses. Não deixou claro por que emergiu agora. Nem precisaria. O surgimento de uma novidade eleitoral robusta significa mar aberto a investidores de capitais financeiro e/ou político. O comandante pode se emendar. O casco, nem sempre. Aí, pode-se trocar de navio. A incógnita é quanto ao destino do povo, seu passageiro.