[[legacy_image_298202]] O discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na Assembleia-Geral das Nações Unidas, ontem, abordou assuntos voltados à política e economia internas, mas também com uma posição da diplomacia brasileira no mundo, muito importante por ser este um momento de redesenho das forças internacionais. Lula retomou o tema da desigualdade, culpou o neoliberalismo pela ascensão da direita extremista e cobrou US\$ 100 bilhões, previstos em acordos anteriores, dos países ricos em benefícios dos pobres para a sustentabilidade ambiental. Mas foi superficial em relação à Ucrânia, após posições muito mal colocadas desde o início de seu governo, quando disse entender que os dois lados queriam a guerra, sendo que a Rússia invadiu o país de Vlodymyr Zelensky. Hoje haverá encontro entre os dois, mas não se pode esquecer que o conflito causou a disparada dos preços do petróleo e de produtos e insumos agrícolas no ano passado, impulsionando a inflação no mundo todo e, principalmente, trouxe o risco de ataque nuclear. E ainda selou uma nova ordem mundial, não só militar, com as potências buscando aliados confiáveis (como México, no caso dos EUA) para fornecerem mercadorias, e a China sem acesso a componentes de alta tecnologia americanos. Neste contexto, a assembleia-geral da ONU ocorre em meio a desconfiança entre seus membros influentes, inclusive com líderes ausentes, como Emmanuel Macron (França), Narendra Modi (Índia) e Xi Jinping (China), e à ascensão dos emergentes, como o próprio Brasil e especialmente a Índia, cada vez mais oposta à China. Lula, ao criticar a direita extremista mundial, mandou um recado aos seu eleitorado e aproveitou para fustigar o neoliberalismo, que os governos do PSDB, com privatizações e políticas de austeridade, que até hoje não são aceitas pelo PT. Culpar essa tendência, que se transformou ao longo de duas décadas, significa estar preso a ideias superadas. O avanço de líderes ou movimentos radicais direitistas tem várias explicações dos analistas, como a insatisfação nos Estados Unidos de parte da sociedade que não usufruiu da riqueza de uma minoria resultante de negócios tecnológicos, a capacidade das redes sociais conectarem e darem vazão a grupos muito conservadores ou ainda a crises econômicas resultando em alguma ruptura, como a do período de Dilma Rousseff, ou agora na Argentina, que parece caminhar para a eleição de um candidato ultraliberal. Apesar de obviamente fazer alegações voltados a seu fiel público, Lula precisa buscar uma posição de estadista moderno, coerente com esse contexto internacional, mais desafiador, mas que vai exigir muita diplomacia para decisões duras pela frente. Como no caso das mudanças climáticas, cada vez mais violentas, ou do impacto da inteligência artificial, que pode resultar em sofrimento para a humanidade ou incríveis progressos econômicos e sociais.