[[legacy_image_205999]] A decisão da Mercedes-Benz de cortar um terço da mão de obra da fábrica de São Bernardo do Campo (SP) preocupa não só pelo impacto socioeconômico no Estado, mas por implicações na indústria. A decisão envolve questões relacionadas à falta de competitividade do Brasil, pessimismo em relação ao próximo ano e transição para energias limpas. A empresa, que no ABC produz caminhões e ônibus, pretende terceirizar parte de suas operações, como logística, manutenção, montagem de eixos e ferramentaria. Não se trata de uma iniciativa assustadora, até porque a Volkswagen já atua dessa forma, sem produzir tudo de que necessita. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! A Mercedes, que vai eliminar 3,6 mil vagas, acenou com a possibilidade de parte do pessoal ser contratado pelos terceirizados. Mas a sinalização que se teve, conforme reportagem do jornal Valor, é da necessidade de reduzir custos, melhorando a competitividade, e dificuldade de atrair investimentos da matriz para o Brasil, que desde 2011 não remete lucros para a sede na Alemanha. A companhia também acredita que o próximo ano não será nada fácil para a venda de veículos comerciais. Já o avanço da eletrificação embute riscos. A montadora pode adaptar sua fábrica aos novos tempos, mas o mercado vai seguir o mesmo ritmo? Até agora o Governo não tirou do papel algum plano de transição energética mais ambicioso e o setor privado está sem saber qual velocidade as mudanças tomarão. Há adequações pontuais. A Argentina pretende fornecer gás de xisto da Patagônia ao Brasil por meio de gasoduto até o Rio Grande do Sul. Por isso, a Iveco vai produzir caminhões a gás em Minas Gerais. A expansão da indústria vai depender da disponibilidade dessa fonte, abundante na Bacia de Santos e na Bolívia, que até hoje não está consolida no País (baixo consumo). A decisão da Mercedes serve de alerta, pois a empresa já fechou fábricas em Campinas e Juiz de Fora (MG) e há pouco repassou a unidade de Iracemápolis, no Interior, para a chinesa Great Wall. Mas o pior sinal veio da Ford, que preferiu gastar US\$ 4,1 bilhões (com demissões, por exemplo) para deixar o Brasil, fechando três unidades (São Bernardo, São José dos Campos e Camaçari, na Bahia). São Bernardo também já perdeu a fábrica da Toyota, que transferiu as atividades para Sorocaba, Indaiatuba e Porto Feliz, cidades onde já estava instalada. A perda de montadoras é um revés não só regional, mas para todo o País, pois elas atraem uma cadeia de serviços e componentes que multiplica a oferta de empregos, negócios e impostos. Esse segmento está passando pela transformação das energias limpas e novos gigantes surgiram, como a Tesla, porém, o Brasil precisa se reinventar como mercado de baixo custo para sobreviver à concorrência asiática. Nesta eleição, a promessa de reindustrializar o País está no discurso dos candidatos, o que é positivo. Mas tirar essa ideia do papel será outra história.