(Matheus Tagé/ AT) A 19ª edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgada esta semana pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, apresenta um retrato complexo da criminalidade no país. De um lado, há dados que indicam avanços importantes na redução da violência letal. De outro, o documento escancara o crescimento de crimes que, muitas vezes, ocorrem dentro de casa, em ambientes íntimos, ou mesmo em plataformas digitais, revelando novas e desafiadoras faces da violência contemporânea. Em 2024, o Brasil registrou 44.127 mortes violentas intencionais — o menor número desde o início da série histórica. A taxa nacional caiu para 20,8 homicídios por 100 mil habitantes, uma redução de 5,4% em relação ao ano anterior. O dado é alentador e reflete os esforços de estados e municípios em políticas de prevenção, inteligência policial e ações integradas. Crimes patrimoniais como roubos de rua, furtos e assaltos a estabelecimentos também apresentaram queda. O país parece estar vencendo, ao menos parcialmente, batalhas importantes no combate à criminalidade tradicional. Contudo, o mesmo anuário aponta para um crescimento alarmante em outras frentes. Em 2024, o Brasil bateu o recorde de feminicídios: foram 1.492 mulheres assassinadas por motivos de gênero — a maior marca já registrada. A violência contra a mulher também se manifestou de forma crescente em crimes como agressões físicas, psicológicas, perseguição, assédio sexual e importunação. Dados do 190 revelam que a cada dois minutos uma ocorrência de violência doméstica foi registrada no país. Outro dado que merece atenção é o avanço expressivo dos crimes digitais. Estelionatos e golpes aplicados em ambientes virtuais somaram mais de 2,2 milhões de casos em 2024 — um aumento de 7,8% em relação a 2023 e de mais de 400% nos últimos seis anos. Essa nova fronteira do crime desafia a capacidade de investigação das polícias e exige investimentos em tecnologia, capacitação e marcos legais atualizados. A violência sexual também registrou índices chocantes: foram mais de 87 mil casos no ano, ou uma vítima a cada seis minutos. Na maioria dos casos, os crimes são praticados por pessoas próximas às vítimas, o que reforça a necessidade de ações educativas, canais de denúncia acessíveis e políticas de proteção mais eficazes. O anuário revela que, embora tenhamos feito progressos contra a violência armada e os crimes de rua, há falhas em proteger as pessoas nos espaços privados, nas relações afetivas e nas interações digitais. A segurança pública do século 21 deve incorporar políticas de gênero, educação para a cidadania digital e redes de apoio às vítimas. Reduzir os homicídios é necessário, mas não suficiente. É preciso ampliar o conceito de segurança para que ele abarque todas as formas de violência e garanta, de fato, o direito à vida e à dignidade para todos.