(Arquivo/ AT) A Prefeitura de Santos e a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) anunciaram a realização de um novo censo da população em situação de rua, com início previsto para fevereiro e divulgação dos resultados entre julho e agosto de 2027. A iniciativa é necessária. O último levantamento, feito em outubro de 2019, oferece um retrato que já não corresponde, necessariamente, à realidade de hoje. Entre um e outro, houve uma pandemia, mudanças profundas na economia, transformações nas relações sociais e alterações no mercado de trabalho, com impactos diretos sobre a vulnerabilidade de milhares de brasileiros. Naquele ano, foram identificadas 868 pessoas em situação de rua em Santos, das quais 761 estavam nas ruas e 107 em serviços de acolhimento. A pesquisa revelou um quadro complexo: predominância de homens, concentração na faixa adulta e relatos frequentes de problemas de saúde. Entre os motivos apontados para viver nas ruas, destacaram-se conflitos familiares, desemprego e uso abusivo de álcool e drogas. A falta de moradia, portanto, é muitas vezes consequência de rupturas mais profundas, que não se resolvem apenas com a oferta de um teto. O novo censo deve ir além da atualização estatística. É uma oportunidade para avaliar o que foi feito desde então. Em 2021, a Prefeitura anunciou a elaboração de um Plano Municipal de Atendimento à População em Situação de Rua. Cabe agora prestar contas: quais medidas foram efetivamente implementadas? Quais produziram resultados? O que ficou no papel e o que precisa ser revisto? Sem essa avaliação, corre-se o risco de repetir diagnósticos e anúncios, sem avançar nas soluções. Há ainda uma dimensão regional incontornável. Em 2019, apenas 22,8% dos entrevistados haviam nascido em Santos. Isso não significa que os demais tenham chegado recentemente à cidade, mas reforça a necessidade de compreender os fluxos populacionais e de construir respostas articuladas entre os municípios da Baixada Santista. Nenhuma cidade deve enfrentar isoladamente um desafio que atravessa fronteiras administrativas e perímetros urbanos. Trata-se, também, de uma questão que envolve saúde física e mental, vínculos familiares, dependência química, educação, qualificação profissional, emprego, habitação e proteção social. Exige atuação coordenada e transversal entre as várias secretarias municipais, acompanhamento individualizado e continuidade, independentemente de mudanças de governo. Mais importante do que descobrir se a população em situação de rua aumentou ou diminuiu entre 2019 e 2027 será transformar os dados em decisões e resultados concretos. Contar pessoas é indispensável, até para se ter ciência do tamanho desse contingente, mas o verdadeiro compromisso público é construir, executar e aperfeiçoar políticas permanentes, multidisciplinares e metropolitanas, que não se limitem à assistência social e ofereçam caminhos alinhados a cada uma das realidades.