As águas de março, eternizadas na canção de Tom Jobim, foram antecipadas. O mês de fevereiro registrou índices pluviométricos recordes, com 916,6 mm em Santos, o maior desde o início da série histórica em 1939. Na última segunda-feira (2) à noite o quadro foi ainda mais dramático: em apenas 12 horas, foram 282 mm em Guarujá e 218 mm em Santos. O balanço mostra deslizamentos em morros, destruição de moradias, e vários mortos e feridos, em situação de caos absoluto nas ruas e avenidas das cidades da região. Não há como fugir a uma realidade: o clima se alterou no planeta, e eventos extremos constituem a regra em todos os países do mundo. São secas e queimadas em algumas regiões, como na Austrália recentemente, e tempestades e inundações em outras, como vem acontecendo no Brasil neste período de verão. É preciso atentar para os números: a média de precipitações em fevereiro nos últimos 25 anos registra 291 mm em Santos. Em 2018, o índice atingiu 317,4 mm; mais do que dobrou em 2019, com 724,1 mm; e chegou agora, neste ano, a 916,6 mm. A situação é muito grave e exige mudança radical de abordagem. O controle de enchentes precisa assumir papel preponderante na administração pública, durante todo o ano, especialmente quando as chuvas são menores e permitem intervenções em obras e serviços de manutenção. Não se pode apenas lamentar ou buscar assistir aqueles que são vítimas das catástrofes. Isso é necessário, evidentemente, mas é preciso ir além. A situação irá piorar nos próximos anos, e as respostas precisam ser dadas, com planejamento e ações para evitar tragédias. A perda de vidas humanas é o resultado mais terrível, mas devem ser considerados os efeitos econômicos, com paralisação de atividades em vários setores e prejuízos materiais graves, além do comprometimento da mobilidade urbana, que afeta o cotidiano de centenas de milhares de pessoas. A questão da ocupação irregular de encostas de morros é o problema mais agudo, que precisa ser enfrentado. Além disso, é necessário diagnosticar os pontos críticos de drenagem urbana - há áreas que inundam de maneira sistemática, mesmo com chuvas pouco intensas - e realizar as obras que possam evitar sérios alagamentos que atingem casas e estabelecimentos comerciais, destruindo instalações, móveis e eletrodomésticos de milhares de pessoas. É verdade que faltam recursos para enfrentar a questão. Mas a situação exige que sejam realocadas verbas - afinal de contas, governar é administrar e alocar prioridades - e o clima se coloca como o grande desafio para os próximos anos, exigindo intervenções que vão desde a manutenção preventiva em bueiros e redes de águas pluviais até a realização das obras necessárias, incluindo a realocação daqueles que vivem em áreas perigosas e com risco iminente.