(Ricardo Stuckert/PR) Apesar de ainda depender das assinaturas finais dos governos dos países do Mercosul e União Europeia, o acordo de livre-comércio concluído na sexta-feira é estratégico para os dois blocos. Mas ele também carrega um simbolismo para as trocas mundiais, pois contraria o avanço da extrema direita, avessa ao multilateralismo, e o protecionismo defendido pelo presidente eleito americano Donald Trump. Além das vantagens de vender mais, reduzir custos e pagar menos, pois haverá redução de tarifas, o tratado sacia diferentes necessidades dos dois lados. O Mercosul poderá aprender com os europeus como agregar valor e marketing às mercadorias, reduzindo a dependência comercial em relação a duas potências opostas – Estados Unidos e China. Já a União Europeia poderá garantir insumos em grandes quantidades e de forma preferencial. E também terá maior segurança alimentar. A preocupação hoje na Europa é com o potencial avanço da Rússia, que já comprometeu a capacidade agrícola ucraniana e poderá atingir outros países, gerando inflação. O que se vê no noticiário é muito festejo no Mercosul e xingamentos da União Europeia. Mas há simultaneamente apoio e oposição nos dois blocos. Assim como no Brasil existem nichos da indústria e serviços preocupados com o talento da Europa nessas áreas. Por lá, os agropecuaristas temem o gigantismo das áreas rurais do Brasil e Argentina, capazes de produzir elevadíssima quantidade de alimentos a custos baixos o ano todo, com até três safras. Porém, o acordo de livre-comércio não é uma porteira aberta isenta de taxas e impostos. Conforme balanço do jornal O Globo, produtos da UE bem vistos por aqui terão tarifas reduzidas apenas gradualmente, como azeite (hoje de 10%), chocolate (20%) e vinho (35%), enquanto os laticínios serão zerados até a venda atingir cotas – por exemplo, o queijo, tarifado hoje em 28%, cairá a zero até somar 30 mil toneladas (6 milhões de peças de meio quilo). É certo que os produtores do Mercosul sofrerão, mas eles terão que investir em qualidade, tecnologia, treinamento de pessoal e marketing. Para isso, vão precisar de crédito, escolas de gestão e técnicos de várias frentes. A concorrência pode fazer transformação profunda – benéfica desde que sob planejamento. O barulho dos protecionistas da Europa e a rejeição eleitoreira do francês Emmanuel Macron sugerem que o acordo não vai sair, mas as vantagens dos europeus foram bem pesadas pela UE. Caso contrário, o bloco já teria saído das conversas. Os brasileiros veem seu país de forma muito crítica, realçando suas falhas, pois realmente precisam ser corrigidas, mas os europeus enxergam um emergente de dimensão continental e populoso que tem um imenso mercado consumidor a ser ampliado. Mas interesses contrariados e demagogos ainda podem prejudicar as conquistas que esse acordo deve propiciar. Por isso, a diplomacia comercial do Mercosul precisa ficar bem atenta a armadilhas.