[[legacy_image_279252]] Além de não conseguir fechar acordo comercial com a União Europeia depois de mais de duas décadas de negociações, o Mercosul corre risco de perder efetividade ou até mesmo de desmanche. Mais uma vez, na última terça-feira, o Uruguai deixou de assinar a carta final do encontro em Puerto Iguazú, na Argentina. A reclamação do Uruguai é antiga: o país almeja fechar tratado comercial com a China, mas os uruguaios não podem fazê-lo individualmente - apenas por meio do Mercosul, uma regra do bloco. Para Brasil e Argentina, essa parceria é impensável. O temor é que mercadorias chinesas baratas entrariam em massa pelo Uruguai e se espalhariam pelos demais sócios do Mercosul, enquanto o Uruguai venderia commodities à China. As indústrias brasileiras e argentinas não aceitariam e possivelmente o fim do Mercosul estaria decretado. O mais curioso é que os países do Mercosul, individualmente, já têm a China como um dos maiores parceiros comerciais (mas sem livre-comércio, como no Mercosul). Fechar um acordo direto do bloco com a China abriria as portas dos quatro países para a indústria chinesa, exportando para lá apenas alimentos e minérios, porque dificilmente os manufaturados do Mercosul teriam competitividade (preços mais baixos) para entrar na China. Para acalmar o Uruguai, o Mercosul costuma acenar com outros acordos via Mercosul, como Vietnã, Indonésia e Austrália, mas, em meio a muita conversa, nada sai do papel. O bloco perdeu o bonde da globalização, quando os acordos multilaterais (entre blocos) ou bilaterais (de país para país) se espalharam pelo mundo. Agora, as parcerias estão sendo fechadas com base na nova ordem mundial, como Ocidente versus China ou Rússia. As economias mais ricas buscam fornecedores em países cuja produção não seja comprometida por uma guerra como a da Ucrânia ou, futuramente, de Taiwan, em tempos de sanções econômicas como arma. O México será o mais beneficiado, recebendo fábricas americanas, enquanto o Japão passou a atrair capital financeiro dos EUA que estava em Taiwan (um movimento liderado pelo bilionário Warren Buffett). As dificuldades são imensas para o Mercosul, pois com ele o comércio entre os quatro países avançou. A Argentina se tornou uma grande importadora de manufaturados brasileiros, principalmente automóveis, enquanto a indústria do Brasil perdeu espaço mediante o preço baixo não só da China, mas do Vietnã, Indonésia, Bangladesh, Índia e até o Paquistão. Enquanto isso, o presidente Lula se dedica à Venezuela, cuja adesão não está agora em discussão no Mercosul, com declarações inaceitáveis sobre o governo autoritário de Nicolás Maduro. As negociações comerciais em geral são pragmáticas e duras, como as com a União Europeia, mas precisam de um empenho diplomático e não apenas de discurso, cedendo para fechar um acordo para que todos os lado possam sair ganhando.