[[legacy_image_237169]] Com a exceção do presidente Lula, a equipe econômica descobre aos poucos como é conviver com um mercado financeiro ressabiado. Conforme os ministros dão entrevistas e a imprensa revela bastidores, investidores e gestores de grandes fundos tentam precificar (acertar um preço futuro) os ativos, desde as ações aos juros. A única certeza é de que há disposição deste governo de aumentar os gastos públicos, combustível da inflação e, portanto, de uma Selic alta por mais tempo. Tudo isso gera muita volatilidade. Os operadores da bolsa mais sabidos fazem o que mais sabem – especulam. Entretanto, tudo isso se mistura à percepção de risco também dos executivos das empresas em geral, pois crédito mais caro e renda fixa atraente (títulos públicos e privados que remuneram mais) desestimulam o consumo e o investimento, induzindo baixo crescimento ou até recessão. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Por isso, convém aos ministros muito cuidado com as palavras e disposição para falar claramente o que pretendem fazer com o País, em especial, com as contas públicas, a gestão das estatais e a administração de preços a cargo do Executivo federal, dos combustíveis às tarifas de energia. Paralelamente, temas como o alcance da reforma tributária e eventual ‘revogaço’ das mudanças dos últimos anos na Previdência, leis trabalhistas e marco do saneamento, que introduziu com profundidade o setor privado nesse segmento, também geram grande apreensão. Há algumas décadas, quando a ascensão de Lula nas pesquisas gerava inquietação no mercado, em um comício, ele perguntou: “alguém aí tem dinheiro na bolsa?” Obviamente que a resposta do público foi negativa. Apesar desse mercado ainda ser para poucos, ele cresceu e atraiu investidores jovens e com menos recursos devido a mudanças adotadas pela B3 (antiga Bovespa) e aplicativos de corretoras gratuitas. Portanto, há uma fatia da classe média que investe no setor financeiro e que está bem interessada, por exemplo, em como seus dividendos serão tributados. Em meio à tensão típica do mercado, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, indicou que sentiu a pressão, irritando-se com a pergunta de um repórter sobre moeda comum do Mercosul, assunto já mencionado pelo embaixador argentino, Daniel Scioli, em entrevista. “Vai se informar melhor”, disse Haddad. Espera-se que seja apenas irritação momentânea, pois ele tem uma difícil tarefa de liderar a equipe econômica e ministérios afins, como os do Planejamento, de Simone Tebet, e o da Indústria, de Geraldo Alckmin, que, aliás, conforme o desempenho de cada um, poderão ser presidenciáveis daqui três anos e meio se Lula realmente não tentar a reeleição. O petista tem ministros com muita disposição a acertar, mas é preciso que o discurso esteja unificado, evitando anúncios paralelos que o presidente mais tarde mandaria engavetar, mas que passam ao mercado o recado da bagunça em um ministério tão grande.