Em Santos, há exemplos claros de abandono duradouro em prédios que no passado funcionaram como escolas públicas (Alexsander Ferraz/AT) Espaços urbanos se transformam de forma dinâmica e contínua, cedem lugar a novos ambientes, com diferentes funcionalidades para públicos diversos. É natural que assim seja especialmente em cidades com restrita área de expansão, como Santos, com seus 39 quilômetros quadrados na parte insular. A necessária renovação urbana ocorre porque é preciso garantir efetividade a novas demandas da sociedade. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Ocorre, porém, que esse processo nem sempre acontece de forma retilínea para garantir que a eventual substituição de usos aconteça sem grandes intervalos entre o velho e o novo. Em Santos, há exemplos claros de abandono duradouro em prédios que no passado funcionaram como escolas públicas, em bairros não-nobres, mas que causam impacto no cenário urbano. Na Vila Nova, o caso mais evidente é da Escola Acácio de Paula Leite, que há dez anos fechou suas portas para os cursos técnicos em nível de segundo grau que ocorreram ali durante 44 anos, formando gerações de contabilistas e professores no Magistério. Agora sob responsabilidade da Câmara de Santos, o prédio segue sem uso, se deteriorando com o passar do tempo, em um dos bairros mais carentes e vulneráveis da Cidade, perdendo a oportunidade para servir novamente como escola, sim, mas também como espaço para artes, exposições e outros eventos públicos e privados. Outro ponto de abandono e deterioração, retratado em ampla reportagem na edição de ontem deste jornal, é o Colégio Docas de Santos, na Vila Mathias. Desativada pela Prefeitura de Santos há quase 20 anos, a escola tem sua história associada à memória de milhares de crianças que fizeram sua formação básica naquele imóvel, parte pertencente à Prefeitura, parte da União. Para os que transitam pela Rua Campos Melo, onde a antiga escola se situa, a impressão que se tem é de abandono e descaso com o patrimônio histórico e com a memória afetiva da educação. A Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), a quem o imóvel está cedido, pretende instalar ali novos espaços para os cursos na área de Saúde e outras atividades acadêmicas e esportivas. Importante destacar que o prédio da escola, embora descaracterizado pela ação do tempo e do vandalismo, tem nível de proteção 2, que pressupõe manter fachada, telhado e dimensões – ou o que sobrou da antiga escola. Nobre a intenção da Unifesp, mas a verba necessária ultrapassa R\$ 100 milhões. Dos cofres públicos federais é quase impossível imaginar que tal quantia será liberada, ainda mais depois do anúncio de contingenciamento de R\$ 30 bilhões do orçamento. Em ambos os casos, Acácio e Docas, manter minimamente as estruturas físicas enquanto se aguardam definições sobre novos usos seria o mínimo para que a remodelação e adaptação não demandassem tantos recursos. A história tem provado que a lógica desse raciocínio, porém, parece não acompanhar as políticas públicas, gestão após gestão.