O alerta do Alto-Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos sobre a inteligência artificial (IA) coincide com a preocupação de inúmeros setores da sociedade, governos e até das forças armadas dos Estados Unidos com a rápida evolução dessa tecnologia e os limites que ela deverá suplantar. O desafio é saber exatamente o que fazer a ponto de não inibir o desenvolvimento científico e como qualquer medida protetiva seria tomada perante tantos interesses econômicos e disputa entre os países mais avançados em IA. O alto-comissário da ONU Volker Türk se referiu na última segunda-feira ao “incidente cibernético” de julho na OpenAI. Segundo reportagens, agentes autônomos de IA (sistemas não humanos) da companhia aproveitaram falhas de segurança e fizeram um ataque hacker independente, usando um fórum de mensagens secreto para distribuir tarefas. O movimento foi contido sem causar grandes danos, mas sua impetuosidade assustou o próprio setor de IA e autoridades governamentais. Desde então, fala-se na necessidade de regulamentação por mais segurança digital. Os avanços que essa tecnologia ainda deve proporcionar ao mundo são inegáveis, mas setores econômicos inteiros devem ficar obsoletos e especialistas preveem sérios impactos no mercado de trabalho antes que os benefícios sejam usufruídos em larga escala no planeta. Há ainda análises futuristas de que a IA ameaçará a existência da humanidade por meio de armas de alto poder de destruição, ou se tornando mais inteligente que o ser humano e adquirindo objetivos próprios. Além disso, há a preocupação existencial de que as máquinas, mais eficientes, diminuirão o estímulo à criatividade e à curiosidade nas próximas décadas. A inteligência artificial também causa impactos não somente em relação ao desenvolvimento tecnológico. Esse setor ainda depende de muito investimento tanto em pesquisa como em infraestrutura, principalmente de data centers caríssimos, que consomem muita água para refrigeração e energia. A necessidade de capitais é tão grande que a IA compete com bolsas de valores, títulos públicos e criptomoedas. Também se fala em bolha das empresas de IA. Algumas delas valorizaram mais de dez vezes nos últimos quatro anos e o mercado teme correções bruscas do preço dessas ações. O risco é que essas companhias não consigam atingir o nível de desenvolvimento de IA que se espera ou que demorem a dar lucros a seus investidores. Neste momento, a IA caminha para a disputa geopolítica, tal como o petróleo, com o modelo das companhias americanas, que cobra pelo acesso à tecnologia, e o da China, estimulando o sistema aberto e gratuito para atrair desenvolvedores e consumidores. Esse movimento alimenta temores de que a IA poderá virar um meio de manipulação e domínio. Há muito pessimismo e deslumbre ao mesmo tempo, mas se espera que os benefícios cheguem a todos os países.