Logo na estreia do comitê de crise, criado para integrar os três poderes (Governo, Parlamento e Judiciário) na luta contra a covid-19, o presidente Jair Bolsonaro criticou o isolamento social e, em ato falho, fez o discurso sem máscara. A cerimônia, realizada na última quarta-feira, revela que ainda imperam a desorganização e a falta de foco do setor público no combate à pandemia. É verdade que tal comitê, uma espécie de arranjo político para ajudar o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, a reverter o rumo contrário do bolsonarismo na urgência sanitária, ainda está no nascedouro. Entretanto, o momento é de dupla prioridade – salvar vidas nos hospitais e vacinar em massa e mais rapidamente – o que não admite, como Queiroga pediu, ter tempo para mostrar resultados. A descoordenação persiste ao mesmo tempo em que as autoridades federais não compreendem o caos que se instalou nas enfermarias e UTIs. Clique e Assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe acesso completo ao Portal e dezenas de descontos em lojas, restaurantes e serviços! Os presidentes das duas casas do Parlamento pressionaram com veemência o Palácio do Planalto por mais objetividade no trato do vírus mortal, mas não foi o suficiente. Isso está claro após o chefe do Executivo gastar fôlego para trocar ministros que não têm relação direta com a pandemia e, no discurso da inauguração do comitê, retomar as críticas aos governadores e prefeitos. A proposta do colegiado é de trabalho conjunto, entendimento e padronização das tarefas da saúde sanitária, mas Bolsonaro não está disposto a abrir mão de suas prioridades, todas centradas em ampliar seu poder, com contornos autoritários, para garantir a reeleição. A contínua descoordenação na luta contra a doença tem impactos devastadores no comportamento da população. Há sim os ataques e o cerco dos críticos do isolamento social, mas governadores e prefeitos enfrentam imensas dificuldades para a população mergulhar na essência de um lockdown, que é ficar em casa por vontade própria. Outro caminho seria o de utilizar forças policiais, como em muitos países da Europa, para esvaziar as ruas, mas no Brasil isso está fora de questão. Seria preciso haver um poder central mais engajado e um habilidoso programa de ajuda econômica para cidadãos e empresas. Medidas positivas foram tomadas há um ano, como o auxílio emergencial, proteção do emprego e crédito com garantia do Tesouro, mas esse socorro bilionário não foi acompanhado de uma estratégia sanitária para derrubar os números da pandemia. Se algo consistente tivesse sido feito, o impacto dessa atual onda com certeza seria menos devastador. Na prática o que se faz no País é exaurir os sistemas de saúde pública e privado para dar conta dos números assustadores da covid-19 até que a vacinação avance e comece a cercar o coronavírus. O problema é que essa situação tem custos pesados, que é os brasileiros sofrerem contínuas perdas de seus familiares e a economia permanecer letárgica. Por enquanto, quem dá as cartas é o vírus.