(Alexsander Ferraz/AT) Apesar das constantes inundações, tanto na Baixada Santista como em várias partes do País, as enxurradas na Grande São Paulo entre a última sexta-feira e sábado merecem ser analisadas como exemplo do impacto das mudanças climáticas nas cidades. Na sexta, um carro levado pela correnteza na Rua Belmiro Braga (não em um córrego ou rio, mas na via pública), em Pinheiros, rompeu um muro, com uma grande quantidade de água surpreendendo, em casa, um morador, que morreu. No dia seguinte, um motociclista, em uma avenida inundada de Guarulhos, não percebeu que entrou no leito de um canal e foi arrastado pelas águas, também morrendo. Os temporais vieram em meio a um calorão e despejaram grande quantidade de chuva em poucos minutos em solo de difícil drenagem. Além das características típicas do extremo climático, de fenômenos arrasadores em mais ocasiões, esses registros se dão perante uma população muito vulnerável. Há um total despreparo da infraestrutura urbana para essas situações e a população desconhece as medidas de segurança – por exemplo, de que não se deve circular em áreas com alagamento. Investimentos em obras contra inundações, constantes nas promessas dos políticos nas eleições, precisam virar prioridade pelos registros cada vez mais catastróficos. São projetos caros, que tendem a sofrer adiamentos ao longo dos anos ou têm sua implantação demorada. Falhas na execução, troca de governante (com outras preferências) e restrições orçamentárias geram uma preocupante descontinuidade de tais realizações importantes para as cidades. Felizmente, tem sido notado uma mudança de mentalidade de prefeitos e governadores sobre os investimentos contra enchentes, e se acredita que a tragédia climática do Rio Grande do Sul, no ano passado, tenha contribuído para isso. O que não significa que haverá grande mudança, pois esses gestores e o presidente Lula lidam com receitas comprometidas com salários, gastos carimbados (exigidos por lei) e parcelamento de dívidas, que dão pouca margem para o investimento em infraestrutura, inclusive contras as chuvas. Também é necessário investir em um plano preventivo, o que exige preparo técnico dos servidores públicos e voluntários da iniciativa privada de forma disseminada pelo País. Trata-se de algo muito difícil, afinal o Brasil não tem furacões nem terremotos. Porém, agora vem registrando tempestades mais violentas, de forma repetida, em grandes malhas urbanas com infraestrutura ineficiente. O problema no Brasil é que os investimentos em infraestrutura são tradicionalmente demorados, ainda mais se eles envolvem desapropriações e licenças ambientais. Assim como o clima, as cidades mudam, surgindo novas áreas, ou com as antigas recebendo construções de todo tipo. Muitas se tornaram expostas a inundações, e as prefeituras precisam estar prontas a isso, investindo em prevenção da melhor forma possível.