Diferentemente de 2022, quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva venceu o antecessor Jair Bolsonaro por reduzida margem, o petista agora está menos pressionado para formar seu novo governo. Ele ficou politicamente forte por ter saído de uma derrota no primeiro turno para uma vitória robusta no segundo, indicando que tem força nas ruas e que passou a dominar as ferramentas digitais. Por isso, pelo menos por enquanto, Lula está mais confortável para escolher seu ministério, com potenciais aliados se expondo na imprensa, como o presidente do PSD, Gilberto Kassab, e o candidato derrotado a governador de Pernambuco, João Campos (PSB). Há pontos frágeis, principalmente o problema fiscal e a péssima reação do mercado financeiro à reeleição. Além disso, a oposição cresceu e o centrão perdeu espaço no Congresso. A recondução do aliado do petista no comando da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), já estaria negociada, inclusive com o PL. Mas Davi Alcolumbre (União-AP), que, após uma briga demorada com Lula, reatou os laços, enfrentará os bolsonaristas pela Presidência do Senado. Na casa, o confronto se dá pelo futuro Supremo Tribunal Federal, com impeachment de ministros e reforma no Judiciário. Aliados de Lula veem a Faria Lima como um reduto da oposição, mas a explicação sobre sua posição que o centro financeiro dá é técnico. O gasto público em excesso impõe juros altos, encarecendo o crédito e tirando capitais do investimento na economia produtiva e da Bolsa para a renda fixa, desacelerando a expansão do Produto Interno Bruto (PIB). Experiente no alto de seu quarto mandato a partir de janeiro, Lula deixou ventilar nomes para avaliar as reações. O mais cotado para chefiar a equipe econômica é o governador do Piauí, Rafael Fontes, gestor com histórico de afeição ao ajuste fiscal e preferido dos grandes investidores e empresários. O vice-presidente Geraldo Alckmin segue como alternativa e o PT tem sondado o economista André Lara Resende, avesso à política de juros altos do Banco Central para controlar a inflação. Após a vitória em 2022, Lula trouxe um discurso de união nacional, mas acabou privilegiando o PT e seu grupo mais próximo e contando com a fluidez do centrão. O confronto com o Legislativo se tornou uma constante. Agora, ele disse que busca uma participação maior dos jovens, que engrossaram a guerrilha digital e foram fundamentais para os grandes atos nas ruas. Também terá que dar vazão aos líderes das pautas identitárias, que marcaram presença na campanha e elegerem muitos pares no Legislativo. Entretanto, o petista terá que fazer os acordos de sempre com aliados de ocasião, interessados na máquina do governo e em emendas bilionárias. Porém, o espaço político para isso e os recursos federais estão muito reduzidos, lembrando que Lula terá que cumprir promessas feitas aos montes aos eleitores e que custarão muito.