O presidente do Federal Reserve (Fed, Banco Central dos Estados Unidos), Kevin Warsh, afirmou na sexta-feira que a inflação americana, de 3,7% ao ano, está muito alta e que os juros poderão subir nos próximos meses para segurá-la. Essa medida, se confirmada, deve causar grandes impactos no Brasil, pois juros elevados nos EUA costumam sugar capitais do mundo, porque o país, por ser estável e seguro, garante melhor rentabilidade. Essa atratividade desestimularia o Banco Central brasileiro a cortar a Selic, tentando manter os papéis do Tesouro mais competitivos. Já o dólar subiria, por passar a ser mais procurado para ingressar nos EUA. No Brasil, produtos que o País importa, como diesel e trigo, ficariam mais caros, pressionando a inflação por aqui e forçando o BC a manter a Selic em patamares superiores. Essa política do Fed a ser adotada ainda neste ano pode atingir o Brasil num momento de preocupação com os gastos públicos. Por enquanto, espera-se que o BC corte a Selic em 0,25 ponto percentual no próximo dia 16. Mesmo assim, ela continuaria em níveis assustadores, a 13,75%. Além disso, há uma preocupação do mercado financeiro com a resistência do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a cortar despesas. Na semana passada, ele disse que a dívida pública não o preocupa. Discursos nessa linha levam à desconfiança do investidor, que tem exigido taxas mais altas para comprar títulos públicos. Aliás, esses sinais do Governo Lula de aversão à austeridade fiscal e o anúncio do presidente do Fed deixam a gestão petista e a de Donald Trump bem parecidas, apesar da distância ideológica. O Governo Trump ampliou os gastos, fazendo com que a dívida americana some US\$ 40 trilhões. Além disso, o mercado temeroso fez com que os juros dos treasuries (títulos americanos) subissem no caso dos papéis de longo prazo. Frente a isso, o Fed passou a fazer a recompra de treasuries, dinheiro que volta à economia e pode gerar inflação. No Brasil, o BC já aventou retomar os títulos para também derrubar as taxas. Em outra semelhança, Trump, que reclamava dos juros impedindo um crescimento mais forte da economia, nomeou Kevin Warsh para o Fed. A mensagem passada é de que Warsh foi indicado para cortar as taxas básicas dos EUA. Lula, antes de indicar Gabriel Galípolo para presidir o BC, também questionava o nível da Selic. Tanto Trump quanto Lula não foram atendidos por seus respectivos nomeados, até porque o Federal Reserve e o Banco Central são instituições independentes. Deve-se reconhecer que juros altos causam danos terríveis à economia, se mantidos por muito tempo e em níveis que inviabilizam a atividade econômica. Mas não há ferramenta mais eficiente para enfrentar a inflação, lembrando que o Brasil, nos anos 1980, experimentou planos criativos, todos fracassados. Por isso, a única saída é a austeridade, abreviando a política monetária dura dos bancos centrais.