(Divulgação) Antes da decisão da última quarta-feira, quando o Banco Central decidiu subir os juros básicos em 0,25 ponto percentual, para 15% ao ano, os analistas do mercado se dividiram sobre qual caminho a Selic seguiria. A segunda opção era mantê-la em 14,75%. Encerrado o suspense, o que se tem certeza é de que a taxa permanecerá até 2026 com dois dígitos para a inflação ser domada – hoje está em 5,32% ao ano, muito acima do teto da meta do BC, de 4,5%. Na visão do BC e dos analistas do mercado, o País segue crescendo em ritmo acima do que uma política monetária restritiva procura. O Produto Interno Bruto e a geração de emprego seguem robustos e persistem os estímulos do governo ao consumo e ao crédito. A intenção do BC é desaquecer a economia (crescer a um ritmo menor) ou até mesmo causar recessão (dois PIBs trimestrais seguidos negativos) para tirar a pressão sobre os preços. Ainda que pareça que o Palácio do Planalto esteja buscando melhorar a situação econômica das famílias e das empresas, essa estratégia, inserida em um plano de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, contraria os movimentos do BC. Como sua direção precisa cumprir a meta de inflação, o aperto será mantido por um tempo muito mais demorado. Hoje, o contexto inflacionário é de arrefecimento dos preços da alimentação, não tanto quanto o consumidor gostaria, mas invertendo a tendência de forte alta. A queda do dólar, de 11% neste ano, dá grande contribuição à perda de força do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA, índice usado pelo BC), barateando combustíveis e importados, como trigo e fertilizantes. O problema continua sendo o setor de serviços, como saúde, transportes, habitação, restaurantes e ainda salões de beleza e academia, ainda em fase de elevação de preços. E isso vai continuar enquanto a população tiver condições para pagar mais por essas atividades. A expectativa é que, até a eleição de 2026, a Selic esteja em 12,5%, conforme o Boletim Focus, ainda pesada e com potencial para impedir crescimento mais forte da economia. Por isso, aos poucos, se percebe uma impaciência da base petista com o indicado de Lula para o BC, Gabriel Galípolo, que na prática manteve a linha do antecessor Roberto Campos Neto. Para a ala política, o ideal seria uma mão forte sobre os juros básicos, o que envenenaria a confiança do mercado no BC. O País já fez isso antes e, em exemplo do exterior, o governo turco, em 2021, derrubou o presidente do BC e sua taxa. O resultado foi muita inflação, que agora persiste a 36% ao ano, com juros de 45%, a taxa mais alta entre as economias relevantes. O mais curioso é que o presidente americano Donald Trump tem atacado o comando do Federal Reserve, o BC do país, e cobrado queda de juros, o que Lula fez em relação a Campos Neto. A autoridade monetária (os BCs) não é perfeita e comete erros, mas a interferência política, geralmente demagógica, causa mais estragos ainda.