[[legacy_image_324097]] “Liberal libertário” e “anarquista de mercado” por definição própria, o presidente Javier Milei encontra dificuldades para implementar seu projeto no início de governo na Argentina. Na última quarta-feira, a Justiça local revogou a reforma trabalhista prevista no pacote de decretos econômicos assinados no mês passado pelo presidente. A Câmara Nacional de Apelações do Trabalho acatou o pedido dos sindicalistas da Confederação Geral do Trabalho (CGT) para aplicar uma medida cautelar que suspende as modificações da legislação laboral até que haja uma sentença definitiva. Os juízes Alejandro Sudera e Andrea García Vior entenderam que ainda há dúvidas sobre se as mudanças justificam a urgência de um decreto, sem passar pelo crivo do Congresso. O pacote assinado por Milei prevê medidas que buscam desregular a economia e encurtar as obrigações do Estado. Na área trabalhista, os decretos aumentam o período de experiência de trabalhadores e relaxam regras para o trabalho de gestantes e a licença-maternidade. Um dos pontos mais controversos prevê a possibilidade de demissão para trabalhadores que participarem de manifestações. Para alguém que defende a liberdade do indivíduo acima de tudo, está aí uma incoerência difícil de assimilar. Além disso, a cada proposta radical, há grande risco de judicialização por parte de entidades ligadas à sociedade civil. E o Poder Judiciário, em um primeiro momento, tende a diminuir o impacto de medidas drásticas no cotidiano da população. Milei tenta levar adiante suas pautas impopulares por meio de decretos. Com minoria no Congresso, o novo presidente vai para o tudo ou nada. Os primeiros resultados, porém, não são animadores. Sucesso nas campanhas eleitorais, as bandeiras ideológicas, na maioria das vezes, não encontram respaldo na realidade, que, cedo ou tarde, sempre se impõe. Vai uma distância grande entre o que se pretende e o que é possível fazer. O equilíbrio entre um polo e outro é o caminho a ser seguido, por mais inviável que possa parecer. Resposta à grave crise financeira por que passa a Argentina, Javier Milei pode ser polêmico, mas não rasga dinheiro. Recentemente, ele rejeitou a entrada de seu país nos Brics, grupo de nações emergentes formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul sob a justificativa de que a adesão “não é oportuna”. Contudo, deixou claro que pretende manter laços bilaterais com os países integrantes do bloco, “em particular o aumento dos fluxos de comércio e investimento”, como declarou. Javier Milei tem todo o direito de tentar fazer um governo completamente diferente do peronista Alberto Fernández, seu antecessor. Mas, ao ignorar a política e tentar governar na marra, o presidente argentino pode se igualar àqueles a quem se opõe por ideologia. E no meio disso tudo, quem corre o risco de perder ainda mais é a população, cada vez mais empobrecida e sem esperança de um futuro melhor.