No rastro da tensão no Oriente Médio, a inflação voltou a se espalhar pelo mundo. O Banco Central Europeu (BCE) subiu sua taxa de juros em 0,25 ponto percentual, para 2,25% ao ano. Nos Estados Unidos, o Federal Reserve manteve suas taxas entre 3,5% e 3,75%, sinalizando que poderá elevá-las ainda neste ano, o que fez o Ibovespa, que até a tarde de ontem subia, passar a cair. Horas depois, no Brasil, o Banco Central reduziu a Selic de 14,5% para 14,25% ao ano, sem deixar claro o que vai fazer nas próximas reuniões. Como o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) retomou nível acima do teto da meta, de 4,5%, chegando a 4,72%, com previsão de bater em 5,3% em dezembro, já se espera que a Selic cairá a 13,75%. O retorno da inflação no mundo não se deve somente à subida do petróleo, de US\$ 60 o barril no começo do ano, para pico de US\$ 126, e agora US\$ 80. Os governos dos países mais ricos, assim como do Brasil, adiaram ajustes fiscais e adotaram paliativos para amenizar o impacto da guerra nos combustíveis. A China há tempos estimula sua economia, enquanto os EUA têm demonstrado resiliência impressionante, com bom crescimento puxado pelos investimentos em inteligência artificial. Paralelamente, o Governo Trump piorou o custo de vida ao aplicar tarifas comerciais sobre importações. Por sorte dos americanos, a Suprema Corte derrubou o tarifaço, mas as sobretaxas não foram totalmente eliminadas. Agora, o Fed, comandado por Kevin Warsh, indicado por Donald Trump para fazer os juros caírem, não deve cumprir tão cedo sua missão. Isso porque a inflação subiu para 4,2%, portanto, em níveis brasileiros. No Brasil, a alta do petróleo foi fundamental para acordar a inflação, que rodava abaixo da meta. Como se trata de um país continental, com custos muito acentuados nos transportes, a subida do barril se torna trágica, porque o modal mais utilizado é o rodoviário, movido a diesel. Quando seu preço avança, o gasto extra se dissemina nos meses seguintes nos serviços e na agropecuária e indústria. Uma vez estabelecida a inflação, como o País mantém a correção automática de contratos pelo IPCA, entre outros índices (aluguéis, concessões de energia e rodovias, etc), o aumento dos juros pelo Banco Central perde força. Também há o ingrediente do gasto público acentuado por motivos eleitorais, uma espécie de anabolizante na economia que estimula o consumo, fazendo com que o BC perpetue sua política de Selic alta. Além disso, há uma expectativa de mais inflação por força do El Niño, que poderá esvaziar alguns reservatórios de hidrelétricas, forçando o uso de térmicas, e impulsionando a conta de luz. Os preços dos alimentos também poderão subir em caso de seca e enchentes. Por isso, resta rezar para o clima colaborar e o petróleo voltar ao patamar anterior de US\$ 60. Ainda ficará o suspense sobre corte de gastos pelo próximo presidente ou por Lula reeleito.